Ultraboost 5: A Adidas perdeu a mão?

O elefante na sala (e nos pés): O problema do peso

Vamos ser brutalmente honestos: eu tenho uma relação de amor-ódio com a Adidas. Desde 2016, ano em que decidi que correr seria mais do que apenas uma resolução de Ano Novo falhada e comecei a levar o treino a sério, a tecnologia Boost foi a minha religião. Mas temos de falar sobre o elefante na sala. Ou melhor, os tijolos que andamos a calçar. O marketing da marca das três riscas adora vender-nos a ideia de "retorno de energia infinito". É uma frase bonita, fica bem nos outdoors da Avenida da Boavista, mas esconde uma realidade frustrante: o peso. Para quem treina para maratonas com objetivos de tempo — e aqui incluo qualquer pessoa que olhe para o relógio e não apenas para a paisagem —, cada grama é uma âncora. Historicamente, o Ultraboost engordou. Começou como uma revolução e transformou-se num sofá confortável. E aqui reside o meu desabafo principal: não podemos continuar a fingir que uma sapatilha com mais de 300g é uma ferramenta de performance versátil. A análise de laboratório do RunRepeat confirma o que os meus pés sentem lá para o quilómetro 25: o peso está lá, e é substancial. A solução não é deitar o par fora — longe disso! —, mas temos de parar de acreditar no departamento de marketing que nos diz que este é o modelo para todos os treinos. Não é. Se queres bater o teu recorde aos 10km, levar o Ultraboost 5 nos pés é como correr com pesos nos tornozelos.

Os números não mentem: Ultraboost 5 vs. A Concorrência

Eu sou um "nerd" dos dados. Adoro folhas de cálculo e tabelas dinâmicas quase tanto quanto adoro um bom prato de pasta carbonara na noite anterior a um treino longo. Por isso, quando pego no Ultraboost 5 (agora equipado com a tecnologia Light Boost), a primeira coisa que faço não é calçá-lo. É pesá-lo. E a realidade, meus amigos, é fria. Vamos olhar para o rácio peso-amortecimento, algo que consulto frequentemente no guia de amortecimento do RunRepeat, para perceber onde é que a Adidas se posiciona face ao mercado atual.
Comparativo Rápido (Dados aprox. Jan 2023):
Modelo Peso Médio (Tam. 42) Sensação de Corrida
Adidas Ultraboost 5 (Light) ~293g Denso e Estável
Nike Invincible 3 ~278g Trampolim Instável
Asics Nimbus 25 ~290g Nuvem Pura ("Max Cushion")
A Adidas prometeu que o novo composto "Light Boost" seria 30% mais leve que o Boost original. E é. A espuma, isoladamente, é uma maravilha técnica. Mas a sapatilha? O pacote completo continua a ser um tanque. É aceitável carregar quase 300g num treino longo de 32km? Talvez, se o objetivo for apenas terminar e sobreviver. Mas se olharmos para a hierarquia da Adidas no RunRepeat, vemos que a linha Adizero (como o Adios Pro 3) faz o trabalho de performance com quase 80g a menos. Eu admito que sou um bocado hipócrita aqui. Há uns anos, jurei que o conforto era mais importante que o peso. Mudei de ideias. Quando tentas baixar das 3 horas na maratona, o conforto excessivo torna-se um fardo. A Adidas não perdeu a mão na engenharia — o Light Boost é impressionante —, mas talvez tenha perdido a noção de quem realmente precisa desta sapatilha.

Uma breve viagem pela história da espuma

Deixem-me divagar um pouco, porque a história importa e eu gosto de perceber como chegámos aqui. Lembram-se de 2013? Eu lembro-me vagamente, ainda corria de forma errática. Foi quando a Adidas revelou o Boost pela primeira vez. Na altura, o lendário Haile Gebrselassie disse que aquilo ia mudar tudo. E mudou! Passámos de solas de EVA duras como pedra para estas bolinhas brancas mágicas de TPU expandido. Eu tenho uma visão nostálgica dessa época, documentada nas revisões antigas da Runner's World. O primeiro Ultraboost era "o melhor sapato de corrida de sempre". Mas a nostalgia não corre maratonas. O mercado evoluiu a uma velocidade furiosa. A Nike apareceu com o ZoomX, a Asics com o FF Blast+, e de repente, o nosso amado Boost começou a parecer tecnologia do Jurássico — pesado, embora indestrutível. A mudança para o Light Boost no Ultraboost 5 não foi uma escolha estética; foi uma necessidade de sobrevivência. Se a Adidas não tivesse feito isto, a linha teria morrido como uma sapatilha puramente de "lifestyle" para usar com calças de ganga (o que, sejamos honestos, já representa metade das vendas). A evolução é cruel e não espera por ninguém.

Domingo de manhã na Foz do Douro

É domingo de manhã no Porto. O vento sopra de Norte, a clássica "nortada" que teima em bater de frente quando vamos em direção a Matosinhos. Estou a correr na marginal, o cheiro a maresia misturado com o café das esplanadas. O que vejo nos pés da maioria dos corredores? É um desfile de moda. E o rei deste desfile é, inegavelmente, o Ultraboost. Aqui, longe das pistas de atletismo e dos testes de lactato, o Ultraboost 5 brilha. O corredor casual português — aquele que corre para desanuviar a cabeça do trabalho e poder comer uma francesinha sem culpa ao almoço — adora esta sapatilha. E com razão! O Strava Global Heatmap mostra claramente que as zonas mais "quentes" de atividade recreativa em Portugal (seja a Marginal de Lisboa ou aqui na Foz) estão cheias de corredores em ritmos confortáveis. Neste cenário, o peso extra é irrelevante. O que importa é a estabilidade do calcanhar (aquele clip de plástico enorme funciona mesmo!) e o facto de a sapatilha ser bonita o suficiente para ires beber um café logo a seguir sem pareceres um astronauta falhado. O Ultraboost 5 é o rei do "social run". É o modelo que eu recomendo aos meus amigos que me dizem "Tiago, quero começar a correr, mas tenho medo de me lesionar". Para eles, a proteção vale cada grama.
Dica de Treinador: Se o teu ritmo de cruzeiro é superior a 5:30/km, o peso do Ultraboost 5 vai passar despercebido. A essa velocidade, o retorno de energia e o conforto vão ajudar-te mais a manter a forma nos últimos quilómetros do que uma sapatilha leve e seca.

O meu veredito: Vale a pena o investimento?

> "Nunca mais calço isto para uma prova." Foi exatamente o que pensei ao cruzar a meta da Maratona de Sevilha há uns anos, com um modelo anterior desta linha. Nos últimos 5km, sentia os quadricípites a arder, mas o pior era a sensação de arrastar os pés. Parecia que tinha chumbo nas solas. Foi um momento de frustração pura — treinei tanto, e senti que o equipamento me estava a limitar. Dá vontade de gritar quando sabes que o teu corpo aguenta, mas a mecânica te falha! No entanto, na terça-feira seguinte, adivinhem o que calcei para o trote de recuperação de 30 minutos? Exatamente. O Ultraboost. A Adidas não perdeu a mão. Ela apenas mudou de faixa. Analisando as estatísticas dos corredores portugueses na DUV Statistics, a grande maioria do pelotão nacional não está a lutar pelo sub-3h. Para 90% dos corredores, ou para os meus dias de recuperação pós-prova onde as pernas pedem carinho, este sapato é um seguro de vida para as articulações. Para quem é o Ultraboost 5: Para o corredor que valoriza durabilidade (a sola Continental dura uma eternidade, é incrível). Para os dias de recuperação ("recovery runs") onde olhar para o pace é proibido. Para corredores mais pesados que precisam de uma estrutura robusta que não colapse ao fim de 10km. Para quem NÃO é: Para quem quer bater RP (Recorde Pessoal) na meia maratona ou maratona. * Para treinos de séries ou fartlek. Se estás à procura de velocidade pura, vai para a linha Adizero. Mas se queres um companheiro leal que vai durar 800km e proteger as tuas pernas na calçada portuguesa irregular das nossas cidades, o Ultraboost 5, apesar do peso e do marketing confuso, ainda tem o seu lugar no meu armário. E provavelmente no teu também.
Corredor a apertar os atacadores das sapatilhas num passeio citadino de manhã
Corredor a apertar os atacadores das sapatilhas num passeio citadino de manhã
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Tiago Ferreira

Corredor apaixonado e treinador certificado, transformo dados complexos em planos práticos. Já cruzei mais de 15 linhas de chegada, de Lisboa a Berlim, sempre em busca do pace perfeito.

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