A Minha Evolução na Maratona (2016-2020): De "Correr Sempre Rápido" para "Arquitetura de Esforço"
Se há coisa que aprendi desde que apertei os atacadores de forma mais séria em 2016, é que a maratona é uma besta humilde. Há quatro anos, quando comecei, a minha mentalidade era simples e, olhando para trás, um pouco ingénua: correr o mais rápido possível, sempre que saía à rua. Eu achava que se não acabasse o treino ofegante, o esforço não tinha contado. Agora, em outubro de 2020, com 32 anos e o certificado de treinador de nível 1 na mão, vejo as coisas de forma muito diferente. A busca pelo pace perfeito não é uma linha reta ascendente; é uma arquitetura complexa. Já cruzei mais de 15 linhas de chegada, de Lisboa a Berlim, e a maior lição que tirei não veio dos recordes pessoais (embora o meu Sub-3h seja um orgulho), mas das lesões que evitei. Este plano que partilho hoje convosco não é sobre sofrimento desnecessário. É o resultado de quatro anos a bater com a cabeça na parede e a analisar folhas de Excel. O objetivo deste ciclo de treino não é apenas chegar à meta, mas chegar lá inteiro, utilizando uma ferramenta muitas vezes subestimada: a consistência nas rodagens lentas.
Dica de Treinador: Muitos iniciantes confundem "evolução" com "velocidade". A verdadeira evolução fisiológica para a maratona acontece quando consegues aumentar o volume semanal sem aumentar o risco de lesão. A velocidade é apenas uma consequência dessa durabilidade.
Para quem está a começar e se sente perdido, recomendo lerem o meu relato antigo sobre o início desta jornada: Do zero à maratona: meu plano de treino e review do Nike Revolution. Ajuda a perceber que todos começamos do zero.
Porquê o Adidas Supernova? Uma Reflexão sobre Conforto vs. Velocidade
Vivemos numa era estranha no mundo da corrida. Se abrirem qualquer site de notícias hoje, só se fala em placas de carbono e espumas espaciais que prometem retirar minutos ao vosso tempo final. É tentador. Eu próprio tenho o meu par de "sapatilhas mágicas" guardado para o dia da prova. Mas, tal como na culinária italiana — a minha outra grande paixão —, não se pode viver apenas de trufas e caviar. É preciso uma base sólida, uma boa pasta al dente que nos sustente dia após dia. O Adidas Supernova representa exatamente esse "prato de massa". Não é o sapato que vai fazer as manchetes por bater o recorde do mundo, mas é o sapato que vai estar nos vossos pés durante 80% do ciclo de treino.
Testar o Plano nas Ruas da Foz e Matosinhos
Não há laboratório melhor que a realidade. Para validar este plano focado na consistência, levei os treinos para o meu "escritório" habitual: a marginal que liga o Porto a Matosinhos. Quem corre por aqui sabe que temos um misto de desafios: a calçada portuguesa traiçoeira, o vento do Atlântico que teima em soprar contra nós na volta, e o asfalto da Avenida do Brasil. O planeamento de rotas é, na minha opinião, metade da batalha mental. Utilizo frequentemente o Strava Global Heatmap para identificar onde os outros corredores locais estão a fazer os seus "longões". É fascinante ver como as linhas de calor se intensificam junto à costa, confirmando que estas rotas planas são a espinha dorsal do treino de muitos maratonistas do Norte.
O Que Dizem os Outros Corredores: A Voz da Comunidade
Não gosto de basear as minhas recomendações apenas na minha experiência n=1. Como analista, procuro padrões. Tenho passado algum tempo a ler fóruns nacionais e a falar com malta nos treinos de grupo de domingo aqui na zona. Existe um consenso curioso (e por vezes contraditório) sobre o treino de base e o calçado de suporte: A favor: Muitos corredores, especialmente amigos meus que já tiveram fascite plantar, juram que sapatos mais robustos e "pesados" como o Supernova salvaram as suas temporadas. Eles falam da "proteção" como o fator número um para aguentar os volumes de treino elevados. Contra: Em discussões online, vejo malta a queixar-se de que sentem os pés "presos" quando tentam acelerar. "Parece que levo tijolos", disse um utilizador num fórum popular. Isto valida a minha tese para este plano: ferramentas certas para dias certos. Se tentarem fazer séries de 400m a ritmo máximo com sapatos de rodagem diária, vão odiar a experiência. Mas se o objetivo é fazer 15km num domingo de manhã sem dores na segunda-feira, a conversa muda. É vital ouvir estas experiências para ajustar as expectativas.A Estrutura do Plano: Semanas 1 a 12
Vamos ao que interessa. Este marathon training plan é uma adaptação de metodologias clássicas (inspirado vagamente na filosofia de Hal Higdon), mas ajustado para a realidade de quem trabalha e não pode viver para correr. O plano divide-se em três blocos de 4 semanas. A progressão é linear, mas com semanas de descarga (recovery weeks) a cada 3ª semana, para garantir absorção do treino.
📌 Conceito Chave: RPE (Rate of Perceived Exertion)
Em vez de ficarem obcecados com o GPS, vamos usar a escala de esforço de 1 a 10.
Em vez de ficarem obcecados com o GPS, vamos usar a escala de esforço de 1 a 10.
- RPE 3-4 (Easy): Conseguem manter uma conversa completa sobre o que vão jantar. (Aqui entra o Supernova).
- RPE 7-8 (Threshold/Tempo): Conseguem dizer frases curtas, mas preferiam estar calados.
- RPE 9-10 (Intervalos): Só conseguem dizer uma palavra, se tanto.
Checklist Semanal do Plano
Aqui está a estrutura de uma semana típica no Bloco 1 (Base):| Dia da Semana | Tipo de Treino | Foco Principal | Equipamento Ideal |
|---|---|---|---|
| Segunda-feira | Descanso ou Cross-Training | Recuperação ativa (Yoga/Natação) | Tapete de Yoga |
| Terça-feira | Rodagem (Easy Run) | Volume aeróbico (RPE 4) - 45 a 60 min | Adidas Supernova |
| Quarta-feira | Velocidade (Speedwork) | Intervalos ou Fartlek (RPE 8-9) | Sapatilha Leve/Mista |
| Quinta-feira | Rodagem (Easy Run) | Recuperação e volume (RPE 3-4) - 40 min | Adidas Supernova |
| Sexta-feira | Descanso Total | Sono e Nutrição | Nenhum |
| Sábado | O Longão (Long Run) | Resistência (RPE 4-5) - 15km a 22km+ | Adidas Supernova |
| Domingo | Caminhada / Recuperação | Mobilidade | Sapatilhas velhas confortáveis |
Dica de Sobrevivência: Se falharem o treino de Quarta-feira (velocidade) por causa do trabalho, não tentem compensar na Quinta. Transformem a Quinta numa rodagem ligeiramente mais viva, mas mantenham o volume. A consistência bate a intensidade.
Utilizem uma folha de Excel simples para registar não só os kms, mas como se sentiram (de 1 a 5). Se tiverem três dias seguidos com "sensação 1 ou 2", é sinal de que precisam de abrandar, independentemente do que o plano diz.
O Dia em que o Ténis Salvou o Treino
Lembro-me vivamente de um treino há cerca de três semanas. Tinha planeado 24km progressivos. A noite anterior tinha sido péssima (trabalho até tarde), e acordei com as pernas pesadas como chumbo. Ao km 16, a minha técnica começou a desmoronar. Normalmente, quando ficamos cansados, deixamos de correr "bonito": a bacia baixa, a passada fica pesada e começamos a bater com o calcanhar no chão com mais força. Estava a usar os Supernova nesse dia. Senti, genuinamente, que a estrutura mais larga e o amortecimento extra no calcanhar estavam a absorver os erros da minha biomecânica falhada.
Contexto e Realidade: Onde nos Situamos?
Antes de descarregarem o PDF e começarem a correr, vamos olhar para a realidade dos números. Segundo a DUV Statistics (Statistik der Deutschen Ultramarathon-Vereinigung), que compila dados globais de ultra e maratonas, a média do corredor recreativo português não é de 2h30. A grande massa do pelotão nacional cruza a meta entre as 3h45 e as 4h15 (Dados históricos até 2020). Isto é importante porque define as expectativas. O meu plano e a escolha de um sapato como o Supernova não são desenhados para vos transformar no Eliud Kipchoge em 12 semanas. São desenhados para vos colocar na melhor percentagem da vossa própria performance.O Que Pode Correr Mal (E Como Evitar)
- O "Too Much Too Soon": O erro clássico. Mesmo com o melhor sapato, aumentar o volume mais de 10% por semana é pedir uma lesão. Respeitem as semanas de descarga no plano.
- Ignorar a Dor "Má": Dor muscular é normal. Dor aguda e localizada (joelho, canela) é sinal de paragem. As estatísticas mostram que a maioria das desistências em maratonas acontece por lesões ignoradas no mês 2 do treino.
- Negligenciar o Sono: Nenhum treino substitui 8 horas de sono. Como treinador, prefiro que cortem 2km ao treino para dormirem mais 20 minutos.
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