Meus tênis favoritos de 2021: O ranking

Vale mesmo a pena investir o salário mínimo em 'Super Shoes'?

Chegamos ao fim de 2021 e a pergunta que recebo quase diariamente no Instagram não mudou desde janeiro: "Tiago, preciso mesmo de gastar 250€ num par de sapatilhas para baixar o meu tempo?" A resposta curta é: depende do quanto valorizas os teus segundos. A resposta longa envolve um pouco mais de Excel e biomecânica. A tecnologia da placa de carbono já não é novidade, mas este ano assistimos à sua democratização. Segundo os dados de laboratório da RunRepeat, a melhoria na economia de corrida é real e mensurável, situando-se frequentemente entre os 2% e os 4% para corredores com passada eficiente. Para mim, que persigo cada segundo para manter o meu sub-3h, essa economia de energia no final da maratona é a diferença entre manter o ritmo ou quebrar no "muro" dos 35km.
A Ciência Simplificada: A placa de carbono funciona como uma alavanca que reduz o trabalho que os gémeos e o tendão de Aquiles precisam de fazer a cada passada. Menos fadiga muscular = ritmo sustentado por mais tempo.
No entanto, há um reverso da medalha que raramente vejo discutido nos grupos de corrida aqui do Porto. Estes "super sapatos" são ferramentas de precisão, não sofás. A rigidez necessária para a propulsão pode ser agressiva para quem corre a ritmos mais lentos (acima de 5:30/km) ou tem uma mecânica de corrida menos polida. Além disso, a durabilidade é muitas vezes sacrificada em nome do peso pluma. Vale a pena? Para dia de prova, sem dúvida. Para treinos diários? Talvez seja como usar um Fórmula 1 para ir comprar pão.

O meu pódio de 2021: O que funcionou nas ruas do Porto

Este ano testei sete pares diferentes. A minha escolha não se baseia apenas em especificações técnicas, mas na dura realidade do nosso terreno: a calçada portuguesa e o paralelo que encontramos mesmo nas zonas mais modernas. Se olharem para o Strava Global Heatmap na zona do Grande Porto, verão que as linhas mais "quentes" (onde mais corremos) raramente são alcatrão imaculado. Precisamos de estabilidade. Aqui está o meu ranking pessoal, sem filtros:
Categoria Modelo Escolhido Porquê?
Competição (Race Day) Nike Vaporfly NEXT% 2 Continua imbatível no retorno de energia, mesmo que a estabilidade em curvas apertadas me deixe nervoso.
Treino Diário ASICS Novablast 2 A grande surpresa. O trampolim perfeito que poupa as pernas sem custar uma fortuna.
Recuperação New Balance Fresh Foam More v3 Basicamente almofadas nos pés para aqueles dias em que tudo dói.
O destaque vai inequivocamente para o asics novablast. Confesso que no passado tive as minhas dúvidas sobre a marca nipónica, especialmente em modelos mais rígidos, mas a linha Novablast mudou o jogo em 2021. O amortecimento da espuma FF Blast oferece aquele "salto" que torna os treinos longos de domingo menos penosos, mas com uma base ligeiramente mais larga que a primeira versão, o que é crucial para não torcer um pé ao descer a Avenida da Boavista. É o equilíbrio raro entre ser divertido de correr e suficientemente robusto para aguentar 600km.
Dica de Treinador: Não usem os vossos ténis de placa de carbono em todos os treinos de velocidade. O corpo habitua-se à ajuda extra e os músculos estabilizadores podem enfraquecer. Rodem o calçado!

O que a elite e a comunidade estão a calçar (para lá da minha bolha)

Sair da minha própria experiência é essencial para analisar dados com isenção. Embora eu tenha um viés claro para a Nike em dias de prova, os números globais mostram uma história diferente, especialmente quando aumentamos a distância. Consultei as estatísticas da DUV Ultra Marathon para 2021 e é fascinante ver como o domínio muda quando passamos dos 42km para os 100km. Nas ultra distâncias, o conforto máximo reina supremo, e marcas como a Hoka One One têm vindo a roubar pódios que antes pertenciam a marcas mais tradicionais. É uma tendência que os fóruns internacionais confirmam: a velocidade pura está a dar lugar à preservação muscular a longo prazo. A própria Runner's World, nas suas listas de "Best of 2021", destacou esta diversificação. Já não vivemos num monopólio de uma só marca. Vemos a Adidas com os Adios Pro a recuperar terreno e a Saucony a fazer sapatilhas incríveis que, infelizmente, são difíceis de encontrar em stock nas lojas físicas em Portugal.
"O melhor ténis não é aquele que o Eliud Kipchoge usa. É aquele que te permite treinar consistentemente sem te lesionares." — Esta frase, que ouvi num podcast de biomecânica este ano, tornou-se o meu mantra.

Olhando para o futuro: A espera pelo Nike Zoom Fly 6 (ou algo parecido)

Termino este ano com um misto de satisfação e ansiedade. Se 2021 foi o ano da consolidação, 2022 promete ser o ano da renovação. Há um elefante na sala — ou melhor, um par de sapatilhas que falta nas prateleiras para os treinos de ritmo (tempo runs). A linha Zoom Fly sempre foi o "cavalo de batalha" que poupa os meus Vaporflys de competição. Mas, sejamos honestos, a versão 4 lançada recentemente não foi consensual. Muitos corredores sentiram que é apenas uma atualização cosmética, mantendo-se demasiado pesada e rija. A comunidade já discute o que virá a seguir. Será que teremos de saltar gerações e esperar por um hipotético nike zoom fly 6 para vermos uma integração real e leve de espuma ZoomX num modelo de treino? A minha esperança (e a minha carta ao Pai Natal) é que o próximo ano traga esse modelo intermédio perfeito: durável mas reativo. Precisamos daquele trainer rápido que aguente 800km de tareia no asfalto sem pesar tijolos nos pés. Até lá, vou continuar a espremer os últimos quilómetros dos meus Novablast e a sonhar com os recordes pessoais que vamos bater em 2022. Boas corridas e cuidado com as rabanadas! 🏃💨
T

Tiago Ferreira

Corredor apaixonado e treinador certificado, transformo dados complexos em planos práticos. Já cruzei mais de 15 linhas de chegada, de Lisboa a Berlim, sempre em busca do pace perfeito.

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