O dilema do amortecimento: TPU vs. Espuma Sintética
Se há algo que une todos os corredores, desde o iniciante que faz os seus primeiros 5K na Foz até ao veterano das maratonas, é aquela sensação temida nas pernas no dia seguinte a um treino longo. Aquele peso, aquela rigidez que nos faz descer as escadas do prédio de lado. Durante anos, aceitei isso como "parte do processo". Mas a verdade é que, muitas vezes, não é apenas o treino que nos mói — é a escolha errada da sapatilha para o dia errado. A batalha entre o Adidas Ultraboost e a tecnologia de espuma da Nike running (React) não é apenas uma guerra de marcas; é um confronto de química pura. E para entender o que deve calçar, precisamos de olhar para dentro da entressola. De um lado, temos o Boost. Lançado em 2013, mudou o jogo. O que parece esferovite é, na verdade, poliuretano termoplástico expandido (eTPU). São milhares de pequenas cápsulas de energia fundidas. Do outro lado, a espuma React da Nike, que é uma espuma sintética de bloco único (baseada em borracha sintética e polímeros), desenhada para ser mais leve e reactiva.
A ciência por trás da temperatura: As "cápsulas" de TPU do Boost são incrivelmente estáveis termicamente. Se treinar no inverno rigoroso e húmido do Porto ou no verão abrasador de Lisboa, a sensação de amortecimento muda muito pouco. Já as espumas sintéticas tradicionais (e até certo ponto o React, embora melhor que o EVA antigo) tendem a ficar mais rígidas no frio e mais moles ("pastosas") no calor excessivo.
Segundo o guia de espumas do RunRepeat, esta diferença química dita a longevidade. O Boost é como aquele amigo teimoso: não muda. Pode acumular 800km e continuar com a mesma resposta elástica. O React, sendo uma espuma de bloco único, tende a sofrer compressão ("creasing") mais cedo, perdendo aquele pop inicial após uns 400-500km, embora ganhe significativamente na balança.
Quando o peso se torna um fardo: A minha experiência na Ponte D. Luís
Lembro-me vivamente de um treino longo de 30km preparatório para Sevilha há uns anos. O plano era manter um ritmo constante, cruzando a Ponte D. Luís I, vindo de Gaia para o Porto. Estava a usar um par de Ultraboost (acho que eram os 19 ou 20 na altura). Até aos 25km, tudo correu bem. O conforto era de primeira classe, como correr sobre nuvens. Mas ao chegar ao tabuleiro da ponte, com as pernas já cansadas e o lactato a subir, cada grama começou a contar. Senti os pés autênticos blocos de cimento. A realidade é que o Ultraboost é pesado. Não há como fugir aos dados. Um Ultraboost 22 pesa cerca de 333g (tamanho 42.5). Em comparação, um Nike React Infinity Run Flyknit 3 pesa à volta de 290g. Podem parecer apenas 40 gramas de diferença, mas multiplique isso por 35.000 passadas numa maratona. É tonelagem extra que os seus flexores da anca têm de levantar a cada passo.
Dica de Treinador: Se o seu ritmo de maratona é mais conservador (acima de 5:30 min/km), o peso extra do Boost é compensado pelo retorno de energia e proteção articular — o corpo sofre menos impacto. Se procura um sub-3h ou sub-3h30, garanto-lhe: essas 40g vão custar-lhe caro nos últimos 10km.
O RunRepeat Lab Data - Adidas Ultraboost confirma que, embora seja um rei do conforto e da pontuação de "softness", o peso é consistentemente o seu ponto fraco nas avaliações de laboratório. Curiosamente, ao olhar para o Strava Global Heatmap em Portugal, vemos imensos corredores a usar estes modelos pesados em rotas planas na marginal ou junto ao Tejo, onde o peso se nota menos, mas a escolha torna-se questionável em rotas com muita altimetria como no Douro Vinhateiro.
Pare de usar o sapato de recuperação para fazer séries
Vamos ser pragmáticos e cortar o fluff. Vejo demasiada gente na pista de atletismo do Parque da Cidade ou na Avenida da Boavista a tentar fazer séries de 1000m ou treinos de limiar (threshold) com Ultraboost. Parem com isso. Se o treino exige mudanças de ritmo bruscas ou velocidades abaixo de 4:15 min/km, o ultraboost vai lutar contra si. A espuma é demasiado macia e absorvente para esse propósito. Toda a força que aplica no solo é dissipada para lhe dar conforto, em vez de ser devolvida para o impulsionar para a frente com a agressividade necessária. É aqui que o universo Nike running com React brilha. Modelos como o Pegasus (que combina React com Zoom Air) ou o Infinity Run têm uma resposta mais seca e imediata. Eles permitem um turnover (cadência) mais rápido e uma transição mais fluida. O conceito chave aqui é a "responsividade". Em espumas muito focadas em conforto, o pé "afunda" antes de descolar. O Boost evita o colapso total sendo denso, mas o React consegue ser resiliente sendo mais leve. A minha regra de ouro para a rotação: Ultraboost: Rodagens fáceis, dias de recuperação pós-prova, treinos longos onde o objetivo é apenas "acabar e sobreviver". Nike React: Treinos de ritmo (Tempo runs), Fartleks, e dias de volume onde quero sentir-me um pouco mais rápido e ágil. Para mais detalhes sobre onde estas sapatilhas encaixam na hierarquia — e porque não são sapatos de competição de elite —, o guia de sapatos de maratona do RunRepeat é uma excelente referência técnica para perceber a diferença entre "treino diário" e "dia da prova".
Uma breve viagem pela calçada portuguesa (e porque isso importa)
Não podemos falar de corrida em Portugal sem falar do nosso inimigo número um (e património cultural): a calçada portuguesa. Seja a treinar em Lisboa, desviando-me de turistas na Baixa, ou aqui no Porto, os paralelos irregulares e as pedras soltas são um teste brutal à estabilidade de qualquer sapatilha. E é aqui que a "batalha" técnica ganha contornos de segurança física. O Ultraboost tem um stack height (altura da sola) considerável e, devido à suavidade do Boost, pode ser instável. Já torci ligeiramente o pé algumas vezes ao pisar numa pedra solta com Boosts, porque a espuma cedeu demasiado lateralmente. É como pisar num colchão de água num terreno irregular. Por outro lado, a linha React, especialmente o Infinity Run, foi desenhada especificamente com uma base mais larga no calcanhar e antepé para promover estabilidade. A Nike comercializa isto como uma forma de "reduzir lesões", e na calçada portuguesa, a teoria confirma-se. A espuma React é mais firme, o que nos dá mais propriocepção (sentimos melhor onde o pé aterra). O teste do paralelo molhado: Aqui o ponto vai para a Adidas. A sola de borracha Continental do Ultraboost é, sem dúvida, superior à borracha padrão da Nike em piso molhado. Na calçada húmida e escorregadia do Porto, o Boost agarra. O React... bem, digamos que já fiz patinagem artística involuntária com alguns modelos da Nike em dias de chuva.Comparativo Técnico: Dados de Laboratório Lado a Lado
Para quem gosta de números crus e não quer saber das minhas histórias de calçada, aqui fica a comparação direta com os dados mais recentes disponíveis (Junho 2022).| Métrica | Adidas Ultraboost 22 | Nike React Infinity Run 3 |
|---|---|---|
| Peso (Homem Tam. 42.5) | ~333g | ~290g |
| Drop | 10mm | 9mm (aprox.) |
| Suavidade (Lab Score) | Muito Alta (TPU) | Média-Firme (Sintética) |
| Respirabilidade | Baixa (Primeknit é quente) | Média (Flyknit ventila melhor) |
| Durabilidade Estimada | 800km+ | 500-600km |
| Preço Médio (Portugal) | €180 - €190 | €160 - €170 |
O que diz o pelotão: Feedback das ruas
Não baseio as minhas conclusões apenas na minha experiência. Nos treinos de grupo e nos fóruns da comunidade, há padrões claros que emergem e que transcendem os dados de laboratório. Os corredores "pesos pesados" (acima de 80kg-85kg) têm uma lealdade quase religiosa ao Ultraboost. Para eles, o React, e até o famoso ZoomX da Nike, por vezes sentem-se instáveis ou "esmagam" demasiado rápido. O suporte estrutural que a "gaiola" (o plástico onde apertam os atacadores) do Ultraboost oferece é vital para quem precisa de sentir o pé seguro e contido. Por outro lado, ouço frequentemente queixas sobre a durabilidade da sola da Nike em fóruns de discussão. "Aos 400km a sola já estava careca", é uma frase comum. A Adidas, com a parceria da Continental, criou um monstro de durabilidade. É frequente ver corredores reformarem os Ultraboost não porque a sola gastou, mas porque a parte superior (o tecido) rompeu ou simplesmente cansaram-se da cor. Outro ponto de discórdia é o ajuste. O Ultraboost 21 e 22 têm sido criticados por serem muito apertados no peito do pé. A Nike tende a ter uma forma ligeiramente mais permissiva ou universal, embora o Infinity Run tenha aquele arco proeminente que divide opiniões (alguns amam o suporte, outros dizem que causa bolhas no arco do pé).Olhando para o Calendário: Qual escolher para a prova?
Estamos em Junho de 2022. O calendário da Federação Portuguesa de Atletismo começa a encher-se de provas para o outono. Muitos de vocês já estão a pensar na Maratona de Lisboa (Outubro) ou na do Porto (Novembro). Qual destes dois gigantes deve levar para a linha de partida? Se olharmos para o perfil da Maratona do Porto, que tem algumas zonas de paralelo e é maioritariamente plana mas com aquele desgaste mental das retas longas, o conforto pode ser rei. Se o seu objetivo é terminar a sua primeira maratona e o tempo é secundário (4h00+), eu levaria o Ultraboost. As suas articulações vão agradecer nos dias seguintes, e a sola Continental dá-lhe a segurança necessária se chover (o que no Porto em Novembro é quase garantido). Para a Maratona de Lisboa, que começa em Cascais e é um percurso rápido e rolante (apesar do vento), se estiver a atacar um recorde pessoal, esqueça o Boost. O peso vai atrapalhar. Se não quiser investir num sapato de placa de carbono (que custam €250+), o modelo da Nike running com espuma React é uma opção muito mais sensata. É leve o suficiente para não prejudicar a mecânica de corrida aos 35km e firme o suficiente para manter a cadência alta. No final do dia, a minha escolha pessoal para a competição mudou muito desde 2016. Hoje, para competir (sub-3h), não uso nenhum destes — uso "super sapatos" de carbono. Mas para os 4 meses de treino duro, de chuva, frio e quilómetros solitários que me levam até àquela linha de partida? Aí sim, estes são os meus cavalos de batalha. E se tivesse de escolher apenas um para sobreviver a um apocalipse zombie (ou a um treino longo num dia de dilúvio no Porto)? Dêem-me a sola Continental e o Boost, porque sei que vão durar para sempre.
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