Asics Novablast 4: A maturidade da linha trampoline

A evolução do 'Trampolim': Do caos controlado à estabilidade

Se há algo que aprendi desde 2016, quando comecei a levar isto das maratonas a sério, é que nem todo o sapato divertido é um bom companheiro para longas distâncias. Lembro-me vividamente da primeira vez que calcei os Novablast originais em 2020. Tinha acabado de sair para um treino na Foz do Douro e a sensação era... selvagem. Era como ter molas nos pés, um retorno de energia brutal que me fazia querer acelerar a cada passada. Mas, meu Deus, os meus tornozelos odiavam-me nas curvas. Aquele primeiro modelo era o caos. Divertido? Sem dúvida. Mas perigoso para quem, como eu, já teve a sua quota de entorses. Passei anos a recomendar o Novablast com um asterisco gigante: "Compra, mas cuidado onde pisas". Agora, em 2023, com o Asics Novablast 4 nos pés, a história é completamente diferente. A geometria mudou drasticamente. Já não sinto aquele medo iminente de torcer o pé se pisar um paralello desnivelado. A Asics parece ter finalmente domado a besta. O "trampolim" ainda está lá — aquela sensação de impulso para a frente que nos poupa as pernas nos dias de cansaço acumulado — mas agora ele salta para onde nós queremos, não para os lados. É uma maturidade geométrica que transformou um "brinquedo" de saltitar numa ferramenta de treino séria e fiável.

Mito vs. Realidade: O Novablast 4 não é um sapato de competição

Vamos tirar o elefante da sala. Eu vejo isto constantemente em fóruns e até ouço alguns atletas que treino a perguntarem: "Tiago, com este retorno de energia todo, posso usar o Novablast 4 para tentar o meu sub-3h na Maratona do Porto?" A resposta curta é: poder, podes, mas não deves. Existe este mito de que, porque o sapato tem "Blast" no nome e é responsivo, ele serve para dia de prova. A verdade é que o lugar do Asics Novablast é na rotação semanal, especificamente nos treinos diários e longões a ritmo moderado. Se olharem para guias especializados, como o RunRepeat Marathon Shoe Guide, verão que ele está categorizado como um treinador diário, não um "racer". A espuma FF BLAST™ PLUS ECO é fantástica, mas falta-lhe aquela agressividade seca e o "snap" de uma placa de carbono que encontramos na linha Metaspeed. Eu já fiz este erro no passado: usar um sapato demasiado macio numa prova de 10km a tentar bater RP. O resultado? Pernas frescas no final, sim, mas um tempo final 40 segundos acima do objetivo porque o sapato "comia" a minha força em vez de a devolver instantaneamente como propulsão rígida.
Dica do Treinador: Use o Novablast 4 para os treinos de volume (aqueles 25-30km de domingo) para poupar as pernas, mas no dia da prova, calce algo mais firme e leve.

Sobre calçadas portuguesas e a necessidade de base larga

Sinceramente, às vezes acho que os engenheiros de calçado japoneses ou americanos nunca puseram os pés em Portugal. As nossas cidades são lindas, mas a calçada portuguesa é um campo minado para corredores. Quem corre na Ribeira ou no Parque das Nações sabe do que falo: pedras soltas, buracos invisíveis e inclinações laterais constantes. Nos modelos anteriores (especialmente o 1 e o 2), a base do calcanhar era estreita e alta. Isso, combinado com a espuma macia, era uma receita para o desastre no nosso terreno. Eu cheguei a ter de evitar certas rotas cénicas no Porto simplesmente porque não confiava nos sapatos para lidar com a irregularidade do piso.
A runner glances at her vibrant
A runner glances at her vibrant
O Novablast 4 resolve isto com uma plataforma visivelmente mais larga, tanto no calcanhar como no antepé. Se consultarmos dados de utilização, como o Strava Global Heatmap, vemos que as rotas ribeirinhas são as mais populares em Portugal. Finalmente, sinto que posso usar este modelo nestas zonas sem ir a olhar para o chão a cada segundo. A estabilidade extra não vem de plásticos rígidos ou postes de suporte (como num Kayano), mas sim dessa base alargada que distribui melhor o impacto e perdoa aterragens imperfeitas.

Análise Laboratorial: O que os números dizem

Deixemos as sensações de lado por um momento e olhemos para a frieza dos dados. Para quem gosta de números como eu, as especificações técnicas contam a verdadeira história da evolução. Segundo os testes independentes do RunRepeat Lab Test, o Novablast 4 apresenta alterações significativas: Stack Height (Altura da Sola): Aumentou ligeiramente para oferecer mais proteção, rondando os 41.5 mm no calcanhar. Isto coloca-o firmemente na categoria "max cushion", ideal para maratonistas que acumulam muito volume. Suavidade da Espuma (Durómetro): A nova espuma FF BLAST™ PLUS ECO mediu cerca de 16.9 HA (unidades de dureza), o que é incrivelmente macio. Para comparação, a média de sapatos de estrada ronda os 22-24 HA. Isto confirma laboratorialmente a sensação de "nuvem" que sentimos. Drop: Mantém-se nos 8mm, um ponto doce que agrada tanto a quem aterra com o calcanhar como a quem aterra com o meio do pé. Outro ponto crucial é a respirabilidade. O novo "woven upper" (parte superior em tecido) obteve pontuações mistas em testes de laboratório. Embora seja extremamente confortável e elástico, retém um pouco mais de calor do que a malha mais aberta do Novablast 3.
Peso Oficial: Aproximadamente 260g (tamanho padrão homem).
Fonte: ASICS Portugal Official Specs (verificado a 10/07/2023).
Apesar de parecer robusto, o peso mantém-se competitivo. Não é uma pluma, mas para a quantidade de espuma que tem debaixo do pé, a eficiência mecânica não fica comprometida.

Sustentabilidade e Tecnologia: FF BLAST™ PLUS ECO

Confesso que sou geralmente cético quando as marcas começam a falar muito de "Eco" e "Bio". Muitas vezes, isso é código para "o material é pior, mas sente-te bem por comprares". No entanto, os dados da ASICS Portugal Official Specs indicam que a espuma FF BLAST™ PLUS ECO é feita com aproximadamente 24% de conteúdo de base biológica (derivado de cana-de-açúcar, por exemplo). A minha reação honesta? Não notei diferença negativa nenhuma. Pelo contrário. Se não me dissessem que havia uma mudança na composição química para materiais mais sustentáveis, eu diria que era apenas uma evolução natural da espuma anterior. O retorno de energia continua vivo. Como treinador, valorizo imenso quando a performance não é sacrificada no altar da ecologia. Conseguiram manter a resiliência do material, o que é raro em primeiras iterações de materiais "bio" no mercado de corrida.

O veredito da comunidade: O que dizem outros corredores

Não sou só eu a falar. Nos grupos de corrida aqui do Porto e nos fóruns online que frequento, o feedback tem sido consistente, mas com nuances interessantes. Tenho ouvido relatos de corredores mais pesados (acima de 80kg) que estão encantados com a durabilidade da sola AHAR. Uma queixa comum no modelo 3 era que a sola se desgastava demasiado rápido no asfalto abrasivo. Parece que a nova borracha está a aguentar melhor o castigo. Por outro lado, "ouvi dizer" em discussões online (e vi alguns comentários de amigos com pés mais finos) que a caixa dos dedos (toe box) está ligeiramente mais espaçosa. Para mim é ótimo, mas se tens um pé muito estreito, talvez tenhas de apertar mais os atacadores do que o habitual. Há também um consenso curioso sobre o ritmo ideal. Vários amigos que usam o sapato para "recovery runs" dizem que ele brilha verdadeiramente a ritmos entre 5:00 e 5:30/km. Quando tentam baixar para 4:00/km em séries, sentem o sapato um pouco "pastelão" devido ao volume. É exatamente a minha experiência: é um cruzeiro de luxo, não uma lancha rápida.
Grupo de corredores a verificar os relógios num parque
Grupo de corredores a verificar os relógios num parque
Se tens curiosidade sobre como outros modelos da marca se comparam, escrevi recentemente sobre a minha experiência com um modelo mais básico no artigo Troquei de marca? Asics Gel Excite 10 no pé, que pode ser útil para quem não quer gastar tanto.

Recomendação final: Para quem é (e para quem não é)

Então, deves comprar o Asics Novablast 4? É para ti se:
Procuras um sapato "para tudo" no treino da maratona (longões, rolagens, dias de recuperação). Valorizas o conforto e a proteção das articulações acima da sensação de chão. Corres em pisos mistos ou calçada portuguesa e precisas de mais estabilidade do que as versões anteriores ofereciam. A tua cadência beneficia de um sapato com retorno de energia (sobre isto, vê o meu artigo sobre a importância da cadência). Não é para ti se: Procuras um sapato para bater o teu recorde pessoal em 5km ou 10km (é demasiado pesado e macio). Gostas de sentir o chão (ground feel) — aqui vais a flutuar a 4cm do solo. Tens tornozelos extremamente instáveis e precisas de correção severa de pronação (embora mais estável, continua a ser um sapato neutro). Em termos de tamanho, na minha experiência e da maioria dos relatos, é fiel ao tamanho (true to size). A durabilidade esperada, dado o upgrade na sola, deve rondar os 600-800km, o que o torna um excelente investimento para um ciclo completo de treino de maratona. Bons treinos e vemo-nos na estrada! 🏃💨
T

Tiago Ferreira

Corredor apaixonado e treinador certificado, transformo dados complexos em planos práticos. Já cruzei mais de 15 linhas de chegada, de Lisboa a Berlim, sempre em busca do pace perfeito.

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