Planilha de Maratona: O segredo da cadência com o Asics Gel Kayano

Cadência: O que precisas de mudar hoje mesmo

Vamos ser diretos: se estás a ler isto, provavelmente sentes aquela dorzinha no joelho após os 25km ou notas que o teu ritmo cai drasticamente na segunda metade da prova. O erro mais comum que vejo nos planos que analiso não é a falta de pulmão, é o overstriding — ou seja, dar passadas demasiado longas. Quando tentamos correr mais rápido, o instinto é esticar a perna. Errado. Ao fazeres isso, o calcanhar aterra muito à frente do centro de gravidade do corpo, agindo como um travão a cada passo. Segundo estudos de referência, como os de Heiderscheit et al. no PubMed, aumentar a taxa de passos (cadência) reduz a carga de impacto nas articulações do joelho e da anca.
Dica do Treinador: No teu próximo treino longo, não tentes correr mais rápido. Tenta apenas dar passos mais curtos e rápidos. O objetivo é aumentar a tua cadência atual em cerca de 5% mantendo a mesma velocidade. O teu corpo (e os teus joelhos) vão agradecer.
Para quem está a começar ou a tentar baixar das 3h30 na maratona, a proteção articular é o jogo principal. É aqui que entra o equipamento. Se a tua técnica falha quando estás cansado, o calçado deixa de ser um acessório e passa a ser uma ferramenta de correção.

Amadores vs. Elite: Onde estamos a falhar?

Adoro olhar para as folhas de cálculo depois de uma maratona. Os números não mentem, e a diferença entre um atleta de elite e nós, mortais, é brutalmente óbvia na biomecânica. Como alguém que persegue obsessivamente o sub-3h, passo horas a comparar os meus dados com os da elite. Abaixo, preparei uma "tabela da verdade". Comparei dados típicos de um corredor de elite (como o Kipchoge), um corredor sub-3h (o meu objetivo e nível atual) e um corredor recreativo (ritmo de 4h30). Tabela: A Biomecânica da Maratona (Médias Estimadas)
Métrica Elite (ex: Kipchoge) Corredor Sub-3h (Avançado) Corredor Recreativo (+4h)
Cadência Média (spm) 185+ 170 - 180 150 - 165
Oscilação Vertical Baixa (<6cm) Média (6-9cm) Alta (>10cm)
Tempo de Contacto (ms) <200ms 210 - 240ms >260ms
Queda de Cadência (km 35) <2% ~5% >10%
Fonte: Dados compilados de DUV Ultra Marathon Statistics e análises de provas oficiais. Última verificação: 2021-10-25.
O dado mais assustador é a "Queda de Cadência" no km 35. Enquanto a elite mantém o motor a funcionar, o amador começa a arrastar os pés, aumentando o tempo de contacto com o solo e, consequentemente, o impacto. É neste momento de fadiga extrema que a escolha do ténis faz toda a diferença. Se tens interesse em como diferentes modelos reagem, podes ler a minha análise sobre o Asics Novablast e o seu efeito trampolim, que é o oposto do que discutimos aqui sobre estabilidade.

Por que razão um ténis pesado pode ajudar na cadência?

Pode parecer contraintuitivo. "Tiago, se eu quero correr rápido e com alta cadência, não devia usar o ténis mais leve possível?" Em teoria, sim. Mas a maratona não é teoria; é gestão de crise. O guia de cadência do RunRepeat sugere que a fadiga altera a nossa propriocepção. Quando estamos frescos, controlamos a passada perfeitamente. Mas aos 32km, quando o glicogénio acaba e a mente divaga, a estrutura de um ténis como o Asics Gel Kayano atua como um carril. Um ténis de estabilidade, embora mais pesado, impede que o tornozelo colapse para dentro (pronação excessiva) a cada aterragem. Esse colapso rouba milissegundos preciosos no tempo de contacto com o solo. Ao estabilizar a passada mais rapidamente, o ténis permite-te levantar o pé do chão mais cedo, facilitando a manutenção de uma cadência mais alta, mesmo quando as pernas pesam toneladas.

Um desvio sobre a calçada portuguesa e estabilidade

Não podemos falar de treino em Portugal sem mencionar o nosso "inimigo" número um: a calçada portuguesa. Quem treina no Porto, junto ao rio Douro, ou faz as subidas de Lisboa, sabe que o piso é irregular, escorregadio e duro. Consultando o Strava Global Heatmap, vemos uma densidade enorme de corredores nestas zonas históricas. A irregularidade do terreno exige um trabalho extra dos músculos estabilizadores da perna. Se tentares manter uma cadência alta num piso destes com um ténis minimalista ou instável, o risco de torção ou sobrecarga no tendão de Aquiles dispara. Aqui, o peso extra de um modelo estruturado como o Kayano justifica-se. A base larga oferece uma plataforma segura para aterrar, permitindo que te concentres apenas no ritmo, e não em onde colocas o pé para não cair. É uma troca justa: carregas mais umas gramas, mas ganhas confiança para atacar o empedrado.

O que dizem os fóruns sobre o Gel Kayano e a passada

Como treinador e "rato de laboratório" de dados, passo demasiado tempo em fóruns internacionais. A perceção da comunidade sobre a linha Kayano em 2021 é mista, mas reveladora. Muitos corredores relatam que sentem o ritmo "preso" em treinos de velocidade (tiros de 400m, por exemplo) devido ao peso. No entanto, o relato muda quando falamos de Long Runs de 30km. Vários utilizadores descrevem o efeito "cruise control": o suporte do arco e o drop mais elevado ajudam a manter um ritmo constante quando a forma começa a degradar-se. Existe uma reputação de "tanque de guerra" associada a este modelo. Não é excitante, não é "bouncy" como os super-shoes de placa de carbono, mas é a ferramenta que te leva até ao fim do treino inteiro. Se já leste sobre a minha experiência quando troquei para o Asics Gel Excite 10, sabes que sou crítico quanto à durabilidade e suporte, e o Kayano raramente falha nesse aspeto.

Os números de laboratório: Asics Gel Kayano sob o microscópio

Vamos aos dados concretos. A sensação é subjetiva, mas as medidas de laboratório são factos. Analisando as especificações técnicas disponíveis para a versão mais recente (Kayano 28, lançado em 2021), encontramos pistas sobre como ele afeta a cadência. Tabela: Especificações Técnicas (Asics Gel Kayano 28)
Especificação Medida / Valor Impacto na Corrida
Peso (Tamanho 42.5) ~305g Pesado para sprints, ideal para proteção em longas distâncias.
Drop (Salto-Ponta) 10mm Favorece quem aterra com o calcanhar (maioria dos amadores cansados).
Altura do Calcanhar 23mm - 25mm (aprox.) Muito amortecimento para absorver impacto repetitivo.
Flexibilidade Rígida (Torção) Guia o pé, reduzindo o esforço muscular para estabilizar.
Fonte: Dados técnicos baseados em testes do RunRepeat Lab Test (Referência à linhagem Kayano). Última verificação: 2021-10-25.
O drop de 10mm é crucial aqui. Um drop mais alto facilita a transição para a ponta do pé para corredores que não têm uma mobilidade de tornozelo perfeita. Isso pode ajudar a manter a cadência fluida, ao contrário de um drop zero que exige muito mais dos gémeos.

O mito da cadência perfeita de 180

Para terminar, preciso de desmistificar algo que oiço em quase todas as sessões de treino. "Tiago, o meu relógio diz que estou a 170 ppm, estou a falhar?" Não. O número 180 (passos por minuto) foi popularizado por observações de corredores olímpicos, mas não é uma lei universal para quem corre a 5:30 min/km. A tua cadência ideal depende da tua altura, comprimento da perna e velocidade. Um corredor de 1,90m terá naturalmente uma cadência ligeiramente menor do que um de 1,65m à mesma velocidade. O segredo não é atingir o 180, mas sim evitar o overstriding que mencionei no início. Se o uso de um ténis como o Kayano te permite terminar o treino de domingo sem dores e com uma cadência constante (seja ela 172 ou 178), então o objetivo foi cumprido. Se queres saber exatamente qual deveria ser o teu ritmo para atingir certos tempos, dá uma vista de olhos na minha Calculadora de Ritmo de Maratona. Lembra-te: na maratona, a consistência ganha sempre à velocidade pura.
"A corrida não é sobre quem chega primeiro, mas sobre quem dura mais tempo."
T

Tiago Ferreira

Corredor apaixonado e treinador certificado, transformo dados complexos em planos práticos. Já cruzei mais de 15 linhas de chegada, de Lisboa a Berlim, sempre em busca do pace perfeito.

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