A Minha Primeira Semana com os 'Trampolins' nos Pés
Confesso que a primeira vez que tirei os Asics Novablast da caixa, soltei uma gargalhada nervosa. A geometria da sola parecia ter saído de um esboço rejeitado de um filme de ficção científica, com aquele calcanhar recortado e uma altura de entressola que me fez questionar se ia correr ou andar em cima de andas. Para quem treina religiosamente desde 2016 e sempre preferiu perfis mais baixos e tradicionais, calçar isto parecia uma traição aos meus princípios de "sentir o chão". Mas a promessa de um retorno de energia massivo era demasiado tentadora para ignorar. O batismo de fogo aconteceu na marginal do Porto, terreno plano e previsível, perfeito para isolar variáveis. Assim que comecei a trotar, a sensação foi... desconcertante. Não era apenas amortecimento passivo; era propulsão ativa. A cada passada, sentia a espuma a comprimir de forma agressiva e a devolver-me para cima. Nos primeiros 5km, senti-me uma criança num castelo insuflável. Contudo, a dúvida instalou-se nas primeiras curvas mais apertadas perto da Ponte da Arrábida: sentia o pé a "nadar" ligeiramente dentro da estrutura.
FlyteFoam Blast: O Que Diz a Ciência Sobre Este 'Salto'
Deixando as minhas sensações subjetivas de lado, é importante olhar para a física da coisa. Como alguém que passa o dia a analisar dados, não me contento com slogans de marketing; quero saber o "porquê". O segredo deste modelo reside na química da espuma FlyteFoam Blast. Ao contrário das espumas tradicionais de EVA, que focam na durabilidade, este composto tem uma densidade menor e uma elasticidade superior. Em testes de laboratório detalhados, como os documentados na análise técnica do RunRepeat Lab Test, observa-se que a dureza (durometer) é significativamente mais baixa do que a média do mercado. Isto permite uma compressão profunda no impacto. O tal "efeito trampolim" não é magia; é geometria. O recorte profundo no calcanhar (o "trampoline pod") permite que a espuma se deforme para fora e para dentro, armazenando energia potencial elástica que é libertada na fase de descolagem. A altura da entressola é crucial aqui — sem essa espessura extra, a espuma bateria no chão ("bottoming out") antes de devolver a energia.
O que os dados mostram: Estudos biomecânicos indicam que sapatilhas com alto retorno de energia podem reduzir o consumo de oxigénio do corredor em ritmos sub-máximos, poupando glicogénio precioso para os quilómetros finais da maratona.
Instabilidade: Mito ou Realidade Perigosa?
Esta é a pergunta de um milhão de euros: "Vou torcer o pé com o Asics Novablast?". A resposta não é linear e depende drasticamente da tua mecânica de corrida. As primeiras versões ganharam uma reputação de serem instáveis, especialmente para quem aterra com o calcanhar de forma pesada. A questão reside no bisel do calcanhar (heel bevel) e na largura da base. Quando estamos frescos, controlamos bem a aterragem. Mas pensem no quilómetro 35 de uma maratona. A forma degrada-se, o "core" relaxa. É aqui que a geometria importa. Especialistas em biomecânica, como os da Doctors of Running - Biomechanics Analysis, apontam frequentemente como a geometria da espuma deve guiar o pé. Se a base for demasiado estreita para a altura da espuma, o risco de torção lateral aumenta exponencialmente quando a fadiga se instala. A Runner's World Review também destacou esta característica, notando que, embora a sensação de "salto" seja divertida, a sapatilha exige que o corredor tenha alguma estabilidade inerente nos tornozelos. Não é um modelo que "segure" o pé se tiveres uma pronação severa.Onde o Novablast Encaixa no Teu Arsenal de Maratona
Vamos ser diretos: Se o teu objetivo é um sub-3h na maratona, vais levar o Novablast para o dia da prova? Provavelmente não. Embora seja uma sapatilha rápida, o peso ainda é superior ao das "super shoes" com placa de carbono. Segundo o comparativo do RunRepeat Best Marathon Shoes Guide, a eficiência energética das sapatilhas de placa (como o Metaspeed Sky ou Vaporfly) ainda bate a espuma pura em distâncias de 42km quando cada segundo conta para recordes pessoais exigentes. No entanto, para o ciclo de treino, o Novablast é uma ferramenta valiosa. Eu coloco-o na categoria de "Daily Trainer com esteróides". Treinos longos de fim de semana: Sim. Protege as pernas de forma exímia. Corridas de recuperação: Sim, o amortecimento é luxuoso. * Séries de velocidade em pista: Não. Demasiado instável nas curvas e falta a "mordida" imediata no chão. Olhando para as estatísticas globais na DUV Statistics - Recent Marathons, vemos que a grande maioria dos corredores recreativos (com tempos acima de 3h30 ou 4h00) beneficiaria mais do conforto e proteção muscular do Novablast durante a prova do que da rigidez agressiva de uma sapatilha de carbono. Se o objetivo é terminar inteiro e feliz, esta é uma opção de corrida muito legítima.O Teste da Calçada Portuguesa: O Que Diz a Comunidade
Aqui é que a porca torce o rabo. Quem corre em Portugal sabe que a nossa calçada é bonita, mas traiçoeira. Especialmente quando chove e as pedras brancas se transformam em sabão. A altura elevada da sola (stack height) do Novablast afasta-te do solo, diminuindo a propriocepção (a noção imediata de onde o pé está). Numa pedra desnivelada, essa altura extra funciona como uma alavanca. Se pisas mal, a força de torção é amplificada pela altura da sola. No grupo do Strava Club - ASICS Portugal, a discussão é recorrente. Muitos corredores adoram a sapatilha para a ciclovia ou estrada de alcatrão imaculada, mas evitam-na como a peste em percursos técnicos ou zonas históricas com muita calçada. Mesmo os atletas da equipa ASICS FrontRunner Portugal, que frequentemente partilham os seus treinos, tendem a utilizar este modelo em pisos regulares, reservando opções mais baixas e estáveis para terrenos mistos. A conclusão comunitária parece alinhar-se com a minha experiência na Foz: Máquina no alcatrão, perigo na calçada.
Dica de Treinador: Se o teu percurso habitual tem muita calçada portuguesa irregular ou buracos, opta por uma sapatilha com perfil mais baixo (drop menor e menos altura de sola) para garantir que sentes o chão antes de torceres o pé.
Decisão Final para a Próxima Temporada
Depois de 150km acumulados, a sola de borracha AHARPLUS mostra pouco desgaste, o que é um excelente sinal para a carteira. Sapatilhas de treino que "morrem" aos 400km são um pesadelo financeiro, e estas parecem ter fôlego para chegar aos 700-800km tranquilamente. A minha decisão? Vou manter os Asics Novablast na rotação fixa. Eles ganharam o lugar de honra como a "sapatilha de quarta-feira e domingo" — perfeitos para aqueles dias em que as pernas estão pesadas do trabalho de ginásio e preciso de ajuda extra para manter o ritmo sem esforço mecânico excessivo. Contudo, para atacar o meu próximo recorde pessoal nos 42km, eles ficam em casa. Gosto de sentir o asfalto e ter uma resposta cirúrgica quando as pernas já não respondem, e o "trampolim", embora incrivelmente divertido, tira-me um pouco desse controlo fino que procuro quando estou no limite do esforço.
Related reading:
Comments
Comments are currently closed. Have feedback or a question? Reach out through the contact info on the About page.