Nike Vomero 18: O retorno do rei do amortecimento?

O veredito rápido: Para quem é este ténis (e para quem não é)

Vamos direto ao ponto, sem aqueles rodeios típicos de quem quer vender qualquer coisa a qualquer custo. O Nike Vomero 18 não é um ténis democrático; ele tem uma personalidade muito vincada. Se você está à procura de uma sapatilha leve, ágil, para fazer séries de 400 metros na pista ou para baixar o seu tempo nos 5km, pare de ler agora. Feche esta aba. O Vomero 18 vai parecer um "tijolo" nos seus pés se o objetivo for velocidade pura. Para isso, existem opções como o Streakfly ou até o Vaporfly. Este ténis tem um dono muito específico: o acumulador de quilómetros. O perfil ideal para o Vomero 18 é o corredor que está num ciclo de maratona (ou meia-maratona) e precisa de "engolir" volumes semanais acima dos 60, 70 ou 80 km sem destruir as articulações. É para quem acorda no domingo de manhã com as pernas pesadas da semana de treinos e precisa de uma ferramenta que ofereça proteção máxima, quase como uma apólice de seguro contra lesões de impacto. Segundo as especificações que consultei na Nike Portugal, estamos a falar de um modelo robusto, desenhado para durar, não para voar. Ele é o "tanque de guerra" do seu arsenal. Use-o para os treinos de recuperação, para os longões em ritmo conversacional (LSD - Long Slow Distance) e para aqueles dias em que o corpo pede clemência, mas a planilha exige execução. Se procura aquela sensação de "pop" agressivo, vai ficar desapontado. Mas se procura chegar ao fim de 30km com os gémeos inteiros, este é o seu parceiro.
Dica de Treinador: Eu classifico o Vomero 18 estritamente como um ténis de "Rodagem" e "Recuperação". Não tente forçar ritmos abaixo de 4:15/km com ele; você vai gastar mais energia a lutar contra o peso do ténis do que a beneficiar da espuma.

A evolução da espuma: De 2016 até hoje

A minha relação com a linha Vomero é longa e tumultuosa, quase como um casamento antigo. Comecei a levar a maratona a sério em 2016, exatamente quando a Nike dominava o mercado de amortecimento "premium" com o Vomero 10 e 11. Naquela altura, antes da revolução das placas de carbono, o Vomero era o "sofá" da Nike. Tinha unidades Zoom Air no calcanhar e no antepé, envolvidas numa espuma Lunarlon que, para a época, era o auge do conforto. Depois, entramos no que eu chamo de "anos das trevas". As versões 14, 15 e 16 sofreram de uma crise de identidade severa. A Nike tentou torná-lo mais rápido, mudando a geometria e endurecendo a entressola. O resultado? Um ténis que não era rápido o suficiente para competir com o Pegasus Turbo, nem confortável o suficiente para ser um verdadeiro cruiser. Eu mesmo deixei de recomendar o Vomero a alunos durante esse período, preferindo o Invincible Run quando este foi lançado. Mas a redenção começou com o 17 e consolida-se agora, em 2024, com o 18. Analisando o histórico no RunRepeat Lab Test, vemos claramente a curva de correção da Nike. O Vomero 18 abraça finalmente a nova era das "Super Espumas" mistas. A combinação atual de ReactX com ZoomX não é apenas marketing; é uma resposta técnica à necessidade de estabilidade que o ZoomX puro (muito instável) não consegue oferecer sozinho num ténis de treino diário. O Vomero 18 aceita a sua natureza maximalista, abandonando a pretensão de ser leve para focar naquilo que sempre fez bem: conforto supremo.

Aquele treino longo na Foz que mudou a minha opinião

Há algumas semanas, estava a meio de um bloco de carga específico para uma maratona de primavera. O plano pedia 32km progressivos. Quem conhece o Porto sabe que correr na marginal, desde a Ribeira até à Foz e voltando por Matosinhos, é deslumbrante, mas o piso é impiedoso. É uma mistura de asfalto duro, cimento e, claro, zonas de calçada. Eu estava cético. Tinha recebido o par de Vomero 18 e sentia-o "grande" no pé enquanto os calçava em casa. "Isto vai ser um arrasto", pensei. Os primeiros 10km foram normais, nada de espetacular. Mas a magia aconteceu quando passei a barreira dos 25km, já a voltar perto do Castelo do Queijo. Normalmente, nesse ponto do treino, a minha mecânica começa a falhar. Os quadricípites queimam e o impacto no metatarso torna-se agudo. Com o Vomero 18, essa "mordida" do asfalto simplesmente não existia. A altura da entressola (stack height) absorvia tudo. Percebi ali que não estava a correr mais rápido por causa do ténis, mas estava a correr com menos dor. Isso permitiu-me manter a cadência estável nos últimos 5km, algo que muitas vezes falho quando uso ténis mais leves mas menos protetores como o Pegasus. Foi a prova prática de que, em treinos longos, o conforto é performance.
A runner in dark athletic wear
A runner in dark athletic wear

Uma breve reflexão sobre a obsessão com o peso

Vamos fazer uma pausa técnica para falar sobre um elefante na sala: o peso. O Vomero 18 não é uma pluma. Se o colocarmos na balança, ele vai pesar mais do que um Pegasus e muito mais do que um Vaporfly. Nos últimos anos, a cultura da corrida, alimentada pelo marketing e pelas redes sociais, criou uma obsessão doentia com a relação "gramas por euro". Parece que se um ténis pesa mais de 280g, é considerado obsoleto. Eu próprio já caí nessa armadilha, criticando modelos robustos em análises passadas. Mas, se olharmos para a história do atletismo, os corredores dos anos 80 e 90 faziam volumes insanos (160km/semana) com sapatilhas que hoje consideraríamos "tijolos" de EVA básico. E eles corriam rápido. A minha filosofia mudou: para o dia da prova, cada grama conta. Para o dia a dia, umas 30 ou 40 gramas extra são um preço irrelevante a pagar se isso significar maior durabilidade da espuma ReactX e maior proteção articular. O peso extra no Vomero vem de uma sola de borracha mais generosa e de uma estrutura de calcanhar mais acolchoada. Prefiro carregar esse peso extra nos treinos e chegar à linha de partida saudável, do que treinar leve e chegar lesionado. Treinar "pesado" faz com que o dia da prova, com os seus super-shoes de carbono, pareça que estamos a voar.

Maximalismo vs. Estabilidade: O mito do 'barco instável'

Um dos maiores receios que ouço dos meus atletas sobre sapatilhas de amortecimento máximo (max-cushion) é a instabilidade. O mito é: "Quanto mais alto o ténis, mais fácil é torcer o pé". É uma preocupação válida, especialmente se olharmos para as primeiras versões do Nike Invincible, que eram autênticos trampolins instáveis. O Vomero 18 resolve isto com geometria, não com plásticos duros. A Nike alargou significativamente a base do ténis (o "last"). Ao ter uma plataforma mais larga no médio-pé e no calcanhar, o centro de gravidade é melhor distribuído. Segundo análises biomecânicas do Doctors of Running, a integração da espuma ReactX (que é mais densa e firme que a ZoomX) numa camada inferior ou encapsulada cria uma "parede de contenção". Isto significa que, mesmo quando a fadiga se instala ao fim de 2 horas de corrida e a nossa forma começa a degradar — pronando um pouco mais, ou aterrando com mais peso no calcanhar — o Vomero 18 não colapsa para os lados. Ele guia o pé. Não é um ténis de estabilidade clássico (como um Structure), mas é inerentemente estável devido à sua largura. É um "barco", sim, mas um porta-aviões, não uma canoa.

O problema da fadiga residual e a solução ReactX

Aqui entramos na ciência da coisa. O grande inimigo do maratonista amador não é o treino de hoje, é a capacidade de treinar amanhã. Chamamos a isto gestão da Fadiga Cumulativa. Quando corremos com espumas muito "secas" ou antigas, a vibração do impacto sobe pela tíbia e acumula micro-danos musculares. A espuma ReactX, estreada no Infinity Run 4 e agora aprimorada no Vomero 18, tem uma propriedade de histerese (dissipação de energia) muito interessante. Ela não devolve toda a energia como o ZoomX (o que dá o tal "pop"), mas ela filtra muito melhor as vibrações de alta frequência do asfalto.

ReactX vs. ZoomX: Qual a diferença?

  • ZoomX (Pebax): Retorno de energia extremo (85%+), muito leve, mas comprime facilmente e pode ser instável.
  • ReactX (TPE modificado): Retorno de energia alto (melhor que o React antigo), mas com foco na durabilidade e densidade. Oferece uma aterragem mais consistente.
No Vomero 18, esta combinação ajuda a preservar a musculatura. Eu notei, empiricamente, que as minhas dores nos gémeos (algo recorrente para mim) diminuíram significativamente nas semanas em que usei o Vomero para 80% da minha rodagem.

Testado na calçada portuguesa: Do empedrado ao asfalto

Não podíamos falar de um ténis para o mercado português sem mencionar o nosso "boss final": a calçada portuguesa. Quem corre em Lisboa ou no Porto sabe que uma sapatilha pode ser ótima em Chicago, mas se escorregar na calçada molhada da Avenida da Boavista, não serve. O padrão da sola do Vomero 18 é um regresso ao clássico "waffle", mas com blocos maiores e borracha de alta abrasão. Consultei o Strava Global Heatmap para confirmar as rotas mais populares em Portugal, e a grande maioria inclui zonas mistas urbanas. No meu teste, a tração em calçada seca é irrepreensível. Em calçada molhada (aquele polido perigoso), ele comporta-se melhor que o Invincible 3 (que era terrível), mas ainda exige cautela. A borracha parece ser ligeiramente mais macia, o que aumenta a aderência ("grip"), mas poderá levantar questões sobre a durabilidade da sola após 600km se correr exclusivamente em piso muito abrasivo. Contudo, para o mix normal de asfalto e passeio, passou no teste com distinção. Sente-se seguro nas curvas, o que é crucial para evitar lesões estúpidas.

Análise de dados: Stack Height e Drop

Vamos aos números frios. Às vezes, o marketing diz "maximalista", mas a fita métrica diz outra coisa. Aqui está o comparativo das especificações técnicas que reuni, cruzando dados oficiais e medições independentes (sempre sujeitas a pequenas variações de produção):
Source: Nike Portugal & RunRepeat Lab Data (Estimativas 2024)
Modelo Stack Height (Calcanhar) Drop Peso (Tam. 42 EU) Tipo de Espuma
Vomero 18 ~39-40mm (Est.) 10mm ~300g ZoomX + ReactX
Pegasus 41 ~33mm 10mm ~280g ReactX (Air Zoom)
Invincible 3 40mm 9mm ~278g Full ZoomX
O que estes dados nos dizem? O Vomero 18 está no limite do legal (40mm é o limite da World Athletics para elite, mas irrelevante para nós amadores em treino). O drop de 10mm é clássico da Nike e uma bênção para quem sofre do tendão de Aquiles, pois retira tensão da cadeia posterior. Se você vem de marcas com drops baixos (Hoka, Altra), a transição para estes 10mm pode parecer estranha no início, mas é muito eficiente para quem aterra com o calcanhar ("heel striker").

Será que precisamos mesmo de tanto amortecimento?

É uma pergunta que vejo frequentemente em fóruns e que, confesso, eu próprio fazia. "Não estaremos a enfraquecer os pés com tanta espuma?". Se olharmos para as estatísticas de participação em ultra-maratonas e o aumento do volume de treino amador na DUV Ultra Marathon Statistics, vemos que as pessoas comuns estão a correr distâncias que antes eram reservadas a profissionais. A diferença? Nós não temos massagista todos os dias. Não temos sonecas de 2 horas à tarde. Trabalhamos 8 horas sentados. Como amadores que tentam atingir metas ambiciosas (seja um Sub-3h ou apenas terminar), o amortecimento extra não é uma "muleta", é uma ferramenta de longevidade. O Vomero 18 insere-se nesta filosofia de proteção. Ele permite-nos errar. Permite-nos aterrar mal quando estamos cansados sem sofrer uma periostite imediata (se esse é o seu problema, veja o meu artigo sobre Canelite). Portanto, a resposta curta é: sim, precisamos, especialmente em piso duro.
Grupo de maratonistas a treinar numa rua da cidade
Grupo de maratonistas a treinar numa rua da cidade

Custo por quilómetro: A matemática final

Chegamos à parte dolorosa: a carteira. O Vomero 18 chega ao mercado português com um preço "premium", tipicamente acima da barreira dos 160€-170€ no lançamento (verifique o preço atual na Nike Portugal). É significativamente mais caro que um Pegasus. Vale a pena? Vamos fazer a conta de "Custo por Quilómetro" (CPK). Se um Pegasus (130€) durar 600km até a espuma "morrer", o CPK é de 0,21€. Se o Vomero 18 (170€) durar 900km — o que é muito provável dada a robustez da ReactX e a quantidade de borracha na sola — o CPK é de 0,18€. A longo prazo, um ténis mais robusto pode sair mais barato. Além disso, há o custo invisível de fisioterapia que você poupa ao estar mais protegido. O meu veredito final: Se o orçamento permitir apenas um par de ténis para tudo, compre o Pegasus ou o Novablast 4. Mas se você pode ter uma rotação de dois pares, o Vomero 18 é a compra obrigatória para ser o seu "cavalo de batalha". Use-o nos dias difíceis, nos dias longos, nos dias de chuva. Guarde as sapatilhas leves para os dias em que se sente um herói. O Vomero estará lá para quando você for apenas humano.
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Tiago Ferreira

Corredor apaixonado e treinador certificado, transformo dados complexos em planos práticos. Já cruzei mais de 15 linhas de chegada, de Lisboa a Berlim, sempre em busca do pace perfeito.

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