A evolução do conforto: De 2016 até hoje
Lembro-me vivamente das primeiras sapatilhas de "amortecimento máximo" que calcei em 2016. Na altura, já levava os treinos a sério, mas o conceito de conforto era radicalmente diferente. Eram tijolos rígidos, pesados, onde a proteção vinha da densidade da borracha e não da leveza da espuma. Se recuarmos 9 anos, o corredor médio no Porto procurava sentir o chão; hoje, parece que queremos fugir dele a todo o custo. A verdadeira revolução aconteceu quando a New Balance decidiu que a espuma não precisava de ser apenas EVA comprimido. A introdução do Fresh Foam mudou o jogo, e a Asics, com a sua lendária linha Nimbus, teve de se adaptar ou morrer. Agora, em maio de 2025, estamos no pico do maximalismo. As plataformas são gigantescas, as geometrias são agressivas e a promessa é sempre a mesma: correr nas nuvens. Mas aqui reside o perigo. Ao longo da minha jornada de sub-3h na maratona, aprendi que o que parece confortável no momento em que calçamos a sapatilha na loja (o "step-in comfort") é frequentemente o inimigo da eficiência no quilómetro 35.Teste de estrada: Do Parque da Cidade à Foz
Para este comparativo, não me limitei a correr na passadeira. Levei ambos os modelos para o meu laboratório pessoal: a rota clássica de domingo no Porto, começando nas curvas de terra batida do Parque da Cidade e descendo pela Avenida da Boavista até à Foz, enfrentando aquela mistura letal de cimento e calçada portuguesa. O Strava Global Heatmap confirma que esta é uma das rotas mais populares da Península Ibérica, e não é por acaso que vemos tantos Nimbus e 1080 nestes segmentos. No Parque da Cidade, onde o piso é mais macio e irregular, o New Balance 1080 brilha. A flexibilidade da espuma permite que o pé se molde ao terreno. No entanto, assim que cheguei à Foz e o piso mudou para a calçada dura e inclinada, a história inverteu-se. O Asics Nimbus 27 mostrou uma integridade estrutural superior. Onde o 1080 me fazia "sambar" ligeiramente no tornozelo devido à compressão excessiva da espuma na calçada, o Nimbus manteve-se firme, absorvendo o impacto vertical sem ceder lateralmente.
Atenção ao terreno: Se os seus treinos longos incluem muitas curvas apertadas ou pisos irregulares (como paralelos ou calçada), a estabilidade extra do Nimbus 27 pode prevenir a fadiga precoce dos estabilizadores do tornozelo.
Análise técnica: O que dizem os números (não o marketing)
Vamos deixar as sensações de lado e olhar para os dados frios. Como alguém que passa o dia a analisar folhas de cálculo de logística, sei que os dados raramente mentem, ao contrário dos departamentos de marketing. Abaixo, compilei uma comparação direta baseada nas especificações técnicas e nos dados de laboratório disponíveis até maio de 2025.📊 Comparativo Técnico: Nimbus 27 vs. NB 1080
| Especificação | Asics Nimbus 27 | New Balance 1080 (Série Recente) |
|---|---|---|
| Peso (Tam. 42.5) | ~305g | ~292g |
| Drop | 8mm | 6mm |
| Altura do Calcanhar (Stack) | 42.0mm | 38.0mm |
| Dureza da Espuma (HA) | 18.5 (Firmeza média) | 13.0 (Muito Macio) |
Fontes: RunRepeat Lab Data (Nimbus Series) e RunRepeat Lab Data (NB 1080 Series). Última verificação: 2025-05-30.
Pare de comprar sapatos só pela 'suavidade'
Este é o conselho que dou mais vezes aos atletas que treino: o "rei do conforto" pode tornar-se o "rei da lesão" se a sua biomecânica não estiver pronta para tanta instabilidade. Se você pesa mais de 80kg ou tem uma cadência baixa (abaixo de 165 ppm), sapatos excessivamente macios como o 1080 podem sobrecarregar o seu tendão de Aquiles e a fáscia plantar. A falta de retorno de energia e o afundamento do calcanhar criam uma tensão extra na cadeia posterior. Para estes corredores, o Nimbus 27 oferece uma base mais segura. A estrutura do calcanhar é mais rígida e segura melhor o pé. Se procura algo para rodagens fáceis e tem uma passada neutra e eficiente, o 1080 é delicioso. Mas se a fadiga faz com que a sua forma se degrade após os 25km, a estrutura do Nimbus vai perdoar mais erros. Se está à procura de algo mais rápido e está disposto a sacrificar um pouco deste conforto "sofá", talvez deva ler a minha análise sobre se o Nike Vomero 18 marcou o retorno do rei do amortecimento, pois oferece um equilíbrio diferente.Mito: Durabilidade é igual em sapatos 'Max Cushion'
Pagamos quase 200€ por estas sapatilhas, por isso a expectativa é que durem. No entanto, a física é implacável: espumas mais macias e arejadas degradam-se mais depressa. Historicamente, e olhando para os dados da DUV Ultra Marathon Statistics que mostram o volume brutal de quilómetros em provas de ultra-resistência, vemos que a integridade da espuma é o primeiro ponto de falha. New Balance 1080: A sola exterior tem muita borracha exposta (blown rubber) para poupar peso e aumentar a suavidade. Isso resulta num desgaste visual mais rápido em asfalto abrasivo. Aos 600km, é comum sentir que a sapatilha "morreu" — perdeu o pop. Asics Nimbus 27: A Asics utiliza a borracha AHAR+, que é notoriamente resistente. Embora adicione peso (como vimos na tabela), garante que a sola exterior sobrevive à espuma. Normalmente, consigo extrair mais 100 a 150km de um par de Nimbus do que de um 1080 antes de os reformar para sapatilhas de caminhada.Qual deles salva as pernas pós-maratona?
Acabou de correr a Maratona de Sevilha ou Lisboa. As pernas estão destruídas, os quadricípites gritam a cada degrau. É terça-feira e tem de fazer um trote de recuperação de 30 minutos. O que calça? Aqui, o meu voto vai para o New Balance 1080. Neste cenário específico, não nos preocupamos com a estabilidade a alta velocidade ou com a eficiência energética. Queremos apenas mimo. O upper (malha superior) do 1080 é, regra geral, mais adaptável e menos constritivo para pés inchados pós-prova do que o knit por vezes denso da Asics. A sensação de "marshmallow" que critiquei para treinos longos é exatamente o que os pés pedem num recovery run lento. Por outro lado, se já está a pensar no próximo ciclo de treinos, veja o meu Plano de Maratona Sub-4h, onde explico como integrar estes sapatos na rotação semanal.Uma nota sobre preços e pastéis de nata
Vamos falar de dinheiro. Em Portugal, o PVP destes modelos ronda os 180€-200€. Fazendo as contas, isto equivale a cerca de 180 pastéis de nata (numa pastelaria não turística) ou quase três inscrições numa meia-maratona nacional.💰 Análise de Valor
- Asics Nimbus 27: Melhor custo-benefício se procura durabilidade e um sapato único para todos os treinos longos.
- New Balance 1080: Vale o investimento se já tiver um sapato mais firme na rotação (como um Novablast ou Rebel) e quiser algo exclusivo para dias fáceis.
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