2016: A Cronologia do Meu 'Big Bang'
O meu "ano zero" não começou com um plano de treino elaborado numa folha de Excel, nem com uma dieta macrobiótica. Começou num domingo chuvoso de janeiro, num shopping no Porto, com uma promoção que gritava "50% de desconto" numa prateleira de sapatilhas. Janeiro: O equipamento básico e a falta de fôlego Comprei um par de Nike Revolution vermelhos. Não sabia nada sobre pronação, supinação ou drop. Só sabia que eram vermelhos e baratos. A minha primeira corrida foi, previsivelmente, um desastre. Saí de casa com uma camisola de algodão (erro crasso) e fiz uns ambiciosos 2 quilómetros. O resultado? Uma dor aguda nas canelas (as famosas shin splints) e a sensação de que os meus pulmões tinham encolhido para o tamanho de nozes. Se alguém me dissesse naquele dia que eu viria a ser um treinador certificado, eu teria rido... se tivesse fôlego para isso.
Dica do Tiago: Não esperem pela "segunda-feira perfeita" para começar. O melhor treino é aquele que realmente acontece, mesmo que seja com sapatilhas baratas e sem relógio GPS.
Perdido na Cidade Invicta: Onde Realmente Corremos
Lembro-me vividamente de uma manhã de nevoeiro cerrado. Eu estava decidido a evitar os olhares alheios — a vergonha do iniciante é real — e decidi explorar uma zona industrial perto de Campanhã. Péssima ideia. Acabei numa rua sem saída, rodeado por camiões de mercadorias e a inalar fumos de escape, completamente longe da vista relaxante do Douro que eu tinha imaginado. No início, achamos que precisamos de rotas secretas, como se correr fosse um ato clandestino. Mas a verdade é que a comunidade sabe o que faz.
O Mito da Estabilidade vs. A Realidade do Conforto
"Você precisa de sapatilhas com suporte máximo, ou vai destruir os seus joelhos." Foi isto que o vendedor me disse quando fui comprar o meu segundo par. Saí da loja com uns "tijolos" nos pés, sapatilhas pesadas, rígidas, supostamente desenhadas para corrigir uma pronação que eu nem tinha certeza se existia. O resultado? Bolhas e uma corrida pesada. Durante muito tempo, acreditei que o preço e a complexidade da sapatilha eram proporcionais à prevenção de lesões. Estava errado. Anos mais tarde, ao mergulhar nos dados, encontrei estudos que validavam o que os meus pés gritavam. Uma análise massiva do RunRepeat sobre suporte de arco sugere que, para a grande maioria dos corredores recreativos, o conforto percebido é um indicador muito melhor do que qualquer teste de pisada feito em 5 minutos numa passadeira de loja.A Realidade dos Dados
Não compliquem demasiado no início. Muitas vezes, um modelo neutro e confortável (como os meus velhos Nike Revolution ou os mais recentes Pegasus) funciona melhor do que sapatilhas ortopédicas caríssimas, a menos que tenham uma patologia diagnosticada por um médico desportivo.
Uma Questão de Números: Não Fui o Único a Começar
Sempre fui fascinado por ver tendências em folhas de cálculo, e a corrida não é exceção. Às vezes, sentimo-nos especiais na nossa jornada, mas a verdade é que o meu "despertar" em 2016 coincidiu com um boom global. Parece que toda a gente à nossa volta começou a correr, certo? Não é impressão vossa. Segundo o relatório The State of Running 2019 do RunRepeat, a participação em eventos de corrida recreativa cresceu 57% na última década. Estamos a falar de milhões de pessoas que, tal como eu, decidiram trocar o sofá pelo asfalto. Ver estes números conforta-me. Mostra que esta busca pelo "pace perfeito" ou pela simples saúde mental não é uma mania isolada, mas uma mudança cultural profunda. Em Portugal, sentimos isso com o esgotar cada vez mais rápido das inscrições para a Meia Maratona de Lisboa ou a do Porto. Fazer parte desta estatística é, curiosamente, algo que me dá orgulho. Sou apenas mais um ponto no gráfico, mas um ponto que agora corre muito mais rápido do que antes.Entre Federações e Folhas de Cálculo
Aqui vai um desabafo honesto: a burocracia do atletismo em Portugal consegue ser mais cansativa do que um treino de séries em subida. Quando decidi que queria melhorar o meu tempo aos 10km "oficialmente", deparei-me com o labirinto que é entender o que conta e o que não conta. Há provas de "vão de escada" que medem 9.8km e dizem que são 10km, e há provas homologadas onde cada metro é certificado. Passei horas no site da Federação Portuguesa de Atletismo (FPA) a tentar perceber o calendário, os escalões de veteranos (mesmo eu ainda sendo sénior) e as regras de filiação. Para quem gosta de dados precisos como eu, correr numa prova não homologada é um pesadelo — como posso saber se o meu Recorde Pessoal é real se a distância estava errada? Esta estrutura "invisível" é fundamental. Sem a FPA e as associações regionais a garantirem a medição dos percursos, os nossos relógios GPS seriam a única fonte de verdade — e todos sabemos como eles falham entre prédios altos. Aprendi a valorizar o selo de "prova oficial". Se não está no calendário oficial, para mim, é apenas um treino pago com t-shirt incluída.Será que o Porto é Plano o Suficiente?
"Mas vais mesmo correr a Maratona do Porto? Aquilo não é só subir e descer?" Ouvi esta pergunta dezenas de vezes dos meus amigos de Lisboa (que, ironicamente, treinam em Monsanto). A reputação do Porto como uma cidade de colinas assusta qualquer iniciante que sonha com a maratona.
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