O que aprendi no meu primeiro ano de corrida

2016: A Cronologia do Meu 'Big Bang'

O meu "ano zero" não começou com um plano de treino elaborado numa folha de Excel, nem com uma dieta macrobiótica. Começou num domingo chuvoso de janeiro, num shopping no Porto, com uma promoção que gritava "50% de desconto" numa prateleira de sapatilhas. Janeiro: O equipamento básico e a falta de fôlego Comprei um par de Nike Revolution vermelhos. Não sabia nada sobre pronação, supinação ou drop. Só sabia que eram vermelhos e baratos. A minha primeira corrida foi, previsivelmente, um desastre. Saí de casa com uma camisola de algodão (erro crasso) e fiz uns ambiciosos 2 quilómetros. O resultado? Uma dor aguda nas canelas (as famosas shin splints) e a sensação de que os meus pulmões tinham encolhido para o tamanho de nozes. Se alguém me dissesse naquele dia que eu viria a ser um treinador certificado, eu teria rido... se tivesse fôlego para isso.
An aerial view reveals ancient
An aerial view reveals ancient
Junho: A primeira linha de meta e os erros de principiante Seis meses depois, cometi o erro clássico de todo o iniciante entusiasmado: inscrevi-me numa prova de 10km sem saber gerir o ritmo. Quando deram o tiro de partida, disparei como se fosse um sprint de 100 metros. Fui ultrapassado por avôs, por pessoas a empurrar carrinhos de bebé e, humilhantemente, por alguém vestido de banana. Foi ali que aprendi a lição mais valiosa: o entusiasmo não substitui a estratégia. No entanto, cruzar aquela meta, mesmo a coxear e com o orgulho ferido, acendeu uma chama. Eu queria entender como correr melhor. Dezembro: Onde a mentalidade mudou Ao chegar ao final de 2016, algo tinha mudado. Já não corria apenas para "queimar o jantar". Comecei a registar os meus tempos. A minha mente analítica despertou. Se eu conseguia otimizar rotas logísticas no trabalho, porque não conseguia otimizar o meu próprio corpo? Foi o momento em que decidi que 2017 não seria apenas mais um ano de jogging; seria o ano em que eu me tornaria um atleta.
Dica do Tiago: Não esperem pela "segunda-feira perfeita" para começar. O melhor treino é aquele que realmente acontece, mesmo que seja com sapatilhas baratas e sem relógio GPS.

Perdido na Cidade Invicta: Onde Realmente Corremos

Lembro-me vividamente de uma manhã de nevoeiro cerrado. Eu estava decidido a evitar os olhares alheios — a vergonha do iniciante é real — e decidi explorar uma zona industrial perto de Campanhã. Péssima ideia. Acabei numa rua sem saída, rodeado por camiões de mercadorias e a inalar fumos de escape, completamente longe da vista relaxante do Douro que eu tinha imaginado. No início, achamos que precisamos de rotas secretas, como se correr fosse um ato clandestino. Mas a verdade é que a comunidade sabe o que faz.
Two smiling men in matching dark
Two smiling men in matching dark
Quando finalmente ganhei coragem para correr na marginal ou no Parque da Cidade, descobri que não estava sozinho e, mais importante, ninguém estava a julgar o meu ritmo lento. Ao consultar o Strava Global Heatmap - Portugal, percebemos que as "artérias" da corrida no Porto e em Lisboa são muito bem definidas por uma razão: segurança, terreno plano e companhia motivadora. Hoje, aconselho todos os meus atletas a irem para onde a tribo está. A energia coletiva puxa-nos para a frente.

O Mito da Estabilidade vs. A Realidade do Conforto

"Você precisa de sapatilhas com suporte máximo, ou vai destruir os seus joelhos." Foi isto que o vendedor me disse quando fui comprar o meu segundo par. Saí da loja com uns "tijolos" nos pés, sapatilhas pesadas, rígidas, supostamente desenhadas para corrigir uma pronação que eu nem tinha certeza se existia. O resultado? Bolhas e uma corrida pesada. Durante muito tempo, acreditei que o preço e a complexidade da sapatilha eram proporcionais à prevenção de lesões. Estava errado. Anos mais tarde, ao mergulhar nos dados, encontrei estudos que validavam o que os meus pés gritavam. Uma análise massiva do RunRepeat sobre suporte de arco sugere que, para a grande maioria dos corredores recreativos, o conforto percebido é um indicador muito melhor do que qualquer teste de pisada feito em 5 minutos numa passadeira de loja.

A Realidade dos Dados

Não compliquem demasiado no início. Muitas vezes, um modelo neutro e confortável (como os meus velhos Nike Revolution ou os mais recentes Pegasus) funciona melhor do que sapatilhas ortopédicas caríssimas, a menos que tenham uma patologia diagnosticada por um médico desportivo.

Se eu pudesse voltar a 2016, diria ao Tiago do passado: "Esquece o marketing de 'controlo de movimento'. Compra o que te faz sentir leve."

Uma Questão de Números: Não Fui o Único a Começar

Sempre fui fascinado por ver tendências em folhas de cálculo, e a corrida não é exceção. Às vezes, sentimo-nos especiais na nossa jornada, mas a verdade é que o meu "despertar" em 2016 coincidiu com um boom global. Parece que toda a gente à nossa volta começou a correr, certo? Não é impressão vossa. Segundo o relatório The State of Running 2019 do RunRepeat, a participação em eventos de corrida recreativa cresceu 57% na última década. Estamos a falar de milhões de pessoas que, tal como eu, decidiram trocar o sofá pelo asfalto. Ver estes números conforta-me. Mostra que esta busca pelo "pace perfeito" ou pela simples saúde mental não é uma mania isolada, mas uma mudança cultural profunda. Em Portugal, sentimos isso com o esgotar cada vez mais rápido das inscrições para a Meia Maratona de Lisboa ou a do Porto. Fazer parte desta estatística é, curiosamente, algo que me dá orgulho. Sou apenas mais um ponto no gráfico, mas um ponto que agora corre muito mais rápido do que antes.

Entre Federações e Folhas de Cálculo

Aqui vai um desabafo honesto: a burocracia do atletismo em Portugal consegue ser mais cansativa do que um treino de séries em subida. Quando decidi que queria melhorar o meu tempo aos 10km "oficialmente", deparei-me com o labirinto que é entender o que conta e o que não conta. Há provas de "vão de escada" que medem 9.8km e dizem que são 10km, e há provas homologadas onde cada metro é certificado. Passei horas no site da Federação Portuguesa de Atletismo (FPA) a tentar perceber o calendário, os escalões de veteranos (mesmo eu ainda sendo sénior) e as regras de filiação. Para quem gosta de dados precisos como eu, correr numa prova não homologada é um pesadelo — como posso saber se o meu Recorde Pessoal é real se a distância estava errada? Esta estrutura "invisível" é fundamental. Sem a FPA e as associações regionais a garantirem a medição dos percursos, os nossos relógios GPS seriam a única fonte de verdade — e todos sabemos como eles falham entre prédios altos. Aprendi a valorizar o selo de "prova oficial". Se não está no calendário oficial, para mim, é apenas um treino pago com t-shirt incluída.

Será que o Porto é Plano o Suficiente?

"Mas vais mesmo correr a Maratona do Porto? Aquilo não é só subir e descer?" Ouvi esta pergunta dezenas de vezes dos meus amigos de Lisboa (que, ironicamente, treinam em Monsanto). A reputação do Porto como uma cidade de colinas assusta qualquer iniciante que sonha com a maratona.
Three happy runners, drenched and
Three happy runners, drenched and
A resposta curta? É preciso estudar o terreno. Fui ler o regulamento e analisar a altimetria no site oficial da Maratona do Porto. A realidade surpreendeu-me: a maior parte da prova é feita junto à água (mar e rio), o que a torna surpreendentemente plana e rápida, exceto por algumas "armadilhas" no final. Isto ensinou-me que o medo muitas vezes vem da ignorância sobre o percurso. Um corredor informado não teme a subida; ele sabe exatamente em que quilómetro ela aparece e guarda energia para ela. Hoje, quando preparo os planos para mim ou para quem ajudo, a análise da altimetria é tão importante como o treino de velocidade.

Para Além do Asfalto: O Que Ouço nos Bastidores

Eu sou um homem de estrada. Gosto do ritmo constante, do som rítmico da sapatilha no alcatrão, da matemática previsível de tentar manter um pace de 4:00/km. Mas, no meu grupo de treino às terças-feiras, a conversa muitas vezes foge do meu controlo. Tenho colegas que olham para a maratona (42.195m) como um "aquecimento". Estão a falar das Ultras. "Tiago, tens de vir experimentar os trilhos da Peneda-Gerês", dizem-me eles. Confesso que a ideia de correr 100km no meio da lama me parece loucura, mas os dados não mentem. Ao consultar a lista de eventos da DUV Ultra Marathon Statistics, vê-se um crescimento exponencial de provas de ultra-distância em Portugal e na Europa. Há um fascínio em ver até onde o corpo humano aguenta. Embora o meu foco continue a ser baixar o meu tempo na maratona de estrada, respeito profundamente essa "outra tribo". Eles lembram-me que a evolução na corrida não é apenas ser mais rápido; para alguns, é sobre ir infinitamente mais longe. Talvez um dia. Por agora, fico-me pelo meu asfalto seguro e pelos meus dados previsíveis.
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Tiago Ferreira

Corredor apaixonado e treinador certificado, transformo dados complexos em planos práticos. Já cruzei mais de 15 linhas de chegada, de Lisboa a Berlim, sempre em busca do pace perfeito.

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