O mito do 'Jantar de Massas' e o que ouço nos bastidores
Se há algo que me deixa genuinamente frustrado nos grupos de WhatsApp de corrida aqui no Porto, é a veneração cega pelo famoso "Jantar de Massas" na noite anterior à prova. É um ritual quase religioso: encher o prato até ao topo com esparguete à bolonhesa às 21h00, na esperança de que isso se transforme magicamente em energia infinita às 09h00 do dia seguinte. A realidade, infelizmente, costuma ser diferente. O que vejo — e o que os dados confirmam — é uma fila interminável para as casas de banho químicas na zona de partida e histórias de "barriga pesada" ou desconforto gástrico ao km 15. O erro não está na massa, mas no timing e na quantidade concentrada numa única refeição. O carbo-loading moderno não é um banquete de última hora. É uma estratégia matemática de 48 horas. Como alguém que treina para maratonas desde 2016, aprendi que deixar a nutrição para a véspera é como tentar estudar para um exame final na manhã da prova: gera mais stress do que resultados. Dados agregados do RunRepeat Lab Data sugerem que o tempo médio de chegada para amadores ultrapassa as 4h30, o que significa que o vosso corpo vai estar em esforço muito depois daquele jantar ter sido digerido (ou não).Mas afinal, por que precisamos de tantos hidratos?
Muitos corredores recreativos perguntam-me: "Tiago, eu não vou para os Jogos Olímpicos. Preciso mesmo de comer arroz ao pequeno-almoço?" A resposta curta é: se planeias correr mais de 90 minutos, sim. A fisiologia não distingue entre um atleta de elite e um amador em termos de mecanismo de combustível. O nosso corpo armazena glicogénio (a forma estocada dos hidratos de carbono) nos músculos e no fígado. Pensem nisto como o depósito de combustível "premium". O problema é que este depósito é limitado. Em média, temos glicogénio suficiente para cerca de 90 a 120 minutos de esforço moderado a intenso. Quando o glicogénio acaba, batemos no famoso "Muro". O corpo é forçado a queimar gordura de forma ineficiente, o cérebro (que adora glicose) entra em modo de pânico e as pernas parecem chumbo. Segundo o Australian Institute of Sport (AIS), para eventos que durem mais de 90 minutos, a carga de hidratos pode aumentar as reservas musculares de glicogénio em até 20-40% acima do normal. Para quem está a seguir um marathon training plan sério, ignorar isto é deitar fora meses de treino árduo.
O Glicogénio em Números:
Um homem de 70kg, com uma dieta normal, armazena cerca de 400-500g de glicogénio. Com um protocolo de carbo-loading bem feito, podemos empurrar este número para perto dos 700-800g. Esses 300g extra podem ser a diferença entre acabar a sorrir ou a caminhar.
Um homem de 70kg, com uma dieta normal, armazena cerca de 400-500g de glicogénio. Com um protocolo de carbo-loading bem feito, podemos empurrar este número para perto dos 700-800g. Esses 300g extra podem ser a diferença entre acabar a sorrir ou a caminhar.
Alimentos Amigos vs. Inimigos do Carbo-Loading
Aqui é onde a maioria falha. Durante o ciclo de treino, eu defendo (e pratico) uma alimentação rica em nutrientes, fibras, integrais e vegetais. Mas nas 48 horas antes da maratona, a lógica inverte-se. O objetivo agora não é "saúde intestinal" a longo prazo, é eficiência energética e digestão rápida. A fibra é o inimigo. A fibra ocupa volume no estômago, retarda a digestão e, crucialmente, aumenta o risco de problemas intestinais durante a corrida. Queremos alimentos com alto Índice Glicémico (IG) e baixo resíduo. Abaixo, apresento a minha "Matriz de Decisão" pessoal que uso para selecionar o menu pré-prova:| Categoria | ✅ O que Comer (Dias -2 e -1) | ❌ O que Evitar (Dias -2 e -1) | Porquê? |
|---|---|---|---|
| Cereais | Arroz branco, Massa normal, Pão branco, Baguetes | Arroz integral, Aveia crua, Pão de sementes, Granola rica em fibra | Integrais têm demasiada fibra; queremos absorção rápida. |
| Fruta | Banana madura, Melão, Compota/Geleia, Sumos de fruta (sem polpa) | Maçã com casca, Pêra, Frutos vermelhos, Frutos secos | A casca e as sementes aumentam o resíduo intestinal. |
| Proteína | Peito de frango, Peixe branco, Ovos (com moderação) | Carne vermelha gorda, Feijão, Grão, Lentilhas | Gordura atrasa o esvaziamento gástrico; leguminosas causam gases. |
| Vegetais | Cenoura cozida, Batata cozida (sem pele) | Brócolos, Couve-flor, Saladas cruas, Espinafres | Vegetais crucíferos são "bombas" de fermentação no intestino. |

A Ciência dos Números: 10g/kg não é sugestão, é meta
Vamos aos dados duros. A ciência evoluiu muito desde os dias em que se fazia a "fase de depleção" (treinar sem comer hidratos para "esvaziar o tanque" antes de encher). Hoje, sabemos que isso apenas aumenta o risco de lesão e imunidade baixa. Segundo o conceituado MySportScience (Asker Jeukendrup), o protocolo moderno e eficaz exige apenas 24 a 48 horas de ingestão elevada, combinada com uma redução drástica do volume de treino (o tapering). A recomendação gold standard situa-se entre 10g a 12g de hidratos de carbono por kg de peso corporal nas 24-36 horas antes da largada. Façamos as contas para um atleta de 70kg (o meu peso de competição): `70kg x 10g = 700g de hidratos de carbono num dia.` Isto é muita comida. Para terem noção, 700g de hidratos equivalem a aproximadamente: 2,5 kg de arroz cozido; OU 14 papo-secos (pães); OU 35 bananas. É humanamente difícil comer isto tudo em "comida sólida" sem se sentir um balão. É aqui que entra o planeamento logístico. Se tentarem atingir estes números apenas com massa e batata, vão falhar. O segredo é beber os hidratos.
Dica de Profissional: Não tentem adivinhar. Usem uma app de contagem de macros (como o MyFitnessPal) nestes dois dias. É a única altura em que sou obsessivo com a pesagem da comida.
O TrainingPeaks Blog reforça que este aumento de ingestão deve acontecer simultaneamente com a redução do treino, para garantir que o glicogénio não é gasto, mas sim acumulado.
Não é sobre comer mais, é sobre comer diferente
Um medo comum que ouço, especialmente de quem vigia o peso, é: "Vou engordar se comer 3000 calorias de hidratos sem treinar". Primeiro, é importante entender uma reação química básica. Cada grama de glicogénio é armazenado com cerca de 3 a 4 gramas de água. Se fizerem o carbo-loading corretamente, vão ganhar entre 1kg a 2kg na balança antes da prova. Isto é ótimo! Significa que estão bem hidratados e com o tanque cheio. Essa água será libertada e usada durante a maratona à medida que queimam o glicogénio. Para manter o equilíbrio calórico e não se sentirem enfartados, a estratégia é a substituição. Enquanto os hidratos sobem para 70-80% das calorias totais, a gordura e a proteína devem descer para o mínimo essencial. Adeus azeite na comida. Adeus manteiga de amendoim. Adeus bifes grandes. É uma dieta temporária e funcional. Contextualizando com dados de ultradistância da DUV Ultra Marathon Statistics, a consistência no pacing (ritmo) está diretamente ligada à disponibilidade de energia. O peso extra da água é irrelevante comparado com a quebra de ritmo que acontece quando o glicogénio acaba.O Plano Prático de 48 Horas (Dia -2 e Dia -1)
Este é o protocolo que eu utilizo. Adapte as quantidades ao seu peso (o exemplo abaixo é para um atleta de ~70kg visando ~600-700g de hidratos). ⚠️ Nota: As quantidades são de alimento cozido ou pronto a consumir, salvo indicação em contrário.Dia -2 (A preparação)
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Pequeno-almoço (08:00):
Papel principal: Começar a carga cedo.
- 2 Pães brancos com compota (geleia) generosa.
- 1 Banana grande.
- Sumo de laranja natural (250ml).
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Almoço (13:00):
Foco: Baixo teor de gordura.
- Prato grande de arroz branco (cerca de 300g cozido).
- Peito de frango grelhado (pequeno, 100g).
- Cenoura cozida.
- Bebida: Ice Tea ou sumo de uva (evitar refrigerantes com gás se causar inchaço).
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Lanche (16:30):
- Gomas ou Marmelada (sim, açúcar simples é bem-vindo aqui).
- 1 Pão com mel.
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Jantar (20:00):
- Massa branca com molho de tomate simples (sem carne, sem natas).
- Gelatina de sobremesa.
Dia -1 (O foco total - Véspera da Prova)
Dica Importante: A maior parte das calorias deve ser consumida até às 16h00. Não deixem para comer tudo ao jantar!
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Pequeno-almoço (08:00):
- Panquecas de farinha branca (sem aveia) com xarope de ácer ou mel.
- Sumo de fruta (500ml) - beber calorias é o segredo para chegar às 10g/kg.
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Meio da Manhã (10:30):
- Bebida desportiva isotónica (500ml) - ir habituando o corpo aos eletrólitos.
- Barra de cereais simples (tipo Corn Flakes, baixo teor de fibra).
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Almoço (13:00) - A refeição principal do dia:
- Massa ou Arroz branco (porção dupla).
- Peixe branco cozido ou grelhado (fácil digestão).
- Evitar vegetais fibrosos completamente hoje.
- Sobremesa: Arroz doce (feito com leite magro) ou banana.
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Lanche (16:00):
- Pão de forma branco com compota.
- Sumo de uva ou maçã.
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Jantar (19:00) - Leve e cedo:
- O "Jantar de Massas" deve ser pequeno. Já carregaram o dia todo.
- Sopa de massinhas (caldo leve).
- Uma sandes de frango simples ou um pouco de arroz.
- O objetivo é ir para a cama sem a digestão estar a trabalhar no máximo.
A minha pior experiência em Berlim e a lição final
Apesar de toda a teoria, a prática ensina-nos com dor. Na Maratona de Berlim (uma das minhas favoritas pela rapidez), cometi um erro tático. Segui o plano de hidratos, mas, na ansiedade de "comer saudável", decidi acompanhar o jantar de véspera com uma salada mista enorme, pensando que os vegetais ajudariam na hidratação. Resultado? A fibra extra acelerou o trânsito intestinal. Passei a manhã da prova com cólicas e tive de fazer uma paragem não planeada ao km 18. Perdi cerca de 4 minutos e, mais importante, perdi o foco mental. Os meus asics gelkayano estavam prontos para voar, mas o meu estômago estava a puxar o travão de mão. A posição oficial do American College of Sports Medicine (ACSM) é clara sobre a necessidade de testar a nutrição. Não deixem para testar este menu na semana da maratona. Usem os vossos treinos longos de domingo (os de 30km+) para simular este "Dia -1" no sábado anterior. Treinar o estômago é tão importante como treinar as pernas. Comam bem, evitem a fibra e confiem nos números. Vemo-nos na linha de chegada.More on this topic:
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