Zoom, ZoomX, Air... Afinal, o que estou a calçar?
"Tiago, o Pegasus tem ZoomX? O Vaporfly tem Air? E o que aconteceu ao Lunarlon?" Se eu ganhasse um euro por cada vez que um dos meus atletas me faz esta pergunta, provavelmente já teria comprado ações da Nike. A confusão é compreensível e, arrisco dizer, deliberada por parte do departamento de marketing de Oregon. Eles adoram usar a palavra "Zoom" em tudo o que é rápido, criando uma sopa de letras que deixa qualquer corredor tonto. Mas aqui está a realidade crua, despida de slogans publicitários: Air Zoom e ZoomX são bestas completamente diferentes. Não são primos, nem sequer vizinhos. Fisicamente, um é mecânica dos fluidos e o outro é química de polímeros avançada. Eu vi esta evolução acontecer em tempo real. Quando comecei a levar os treinos a sério em 2016, o cenário era dominado pelo EVA (Ethylene-Vinyl Acetate). Era o "pão com manteiga" da corrida. Depois veio o boom do "super shoe". Hoje, em 2026, temos o privilégio de escolher, mas essa escolha tem de ser informada. Simplificando ao extremo antes de mergulharmos nos detalhes técnicos: Air Zoom: É ar pressurizado. Pense nele como a suspensão do seu carro. É mecânico, reativo e dura quase para sempre. ZoomX: É plástico espacial (PEBA). Pense nele como o combustível de foguetão. É químico, retorna energia de forma explosiva, mas desgasta-se rápido.O Problema da Durabilidade vs. Performance
Todos queremos aquela sensação mágica de correr sobre nuvens que o ZoomX proporciona. Quem já calçou um Vaporfly sabe do que falo: as pernas parecem mais leves, o ritmo sobe sem esforço cardíaco adicional. O problema? Queremos essa sensação sempre. E é aqui que muitos corredores amadores falham. Usam os seus "Ferraris" (sapatilhas de competição com placa e ZoomX) para ir comprar pão ou para trotes regenerativos a 6:00/km.
Atenção ao desperdício: A espuma ZoomX é notória pela sua fragilidade. Estudos indicam que após 300-400km, o retorno de energia começa a degradar-se significativamente. Usá-la em treinos fáceis é literalmente queimar dinheiro.
Por outro lado, o Air Zoom resolve o problema da durabilidade. As bolsas de ar não sofrem de "compression set" (o abatimento permanente da espuma) da mesma forma. Elas comprimem e voltam à forma original milhares de vezes. É por isso que modelos como o Nike Air Zoom Pegasus continuam a ser os reis da quilometragem diária. Eles aguentam a pancada repetida do treino de base sem perderem as propriedades elásticas.
A solução ideal não é escolher um ou outro, mas sim construir uma rotação. O Air Zoom é o seu cavalo de batalha; o ZoomX é o seu puro-sangue de corrida.
Uma breve viagem pela história do amortecimento (e porque o EVA morreu)
Vou fazer um pequeno desvio aqui. Lembro-me vividamente da minha preparação para a Maratona do Porto em 2017. Na altura, as opções eram limitadas. Corríamos com blocos de EVA que, comparados com o que temos hoje, pareciam tijolos. O EVA tradicional é como uma massa que cozeu demasiado tempo: é mole, mas sem vida. Quando pisas, ele deforma e absorve o impacto, mas não te "devolve" quase nada. É energia dissipada em calor. Depois de 30km, as pernas pareciam chumbo porque o material já tinha "morrido" a meio da prova. Como grande apreciador de culinária italiana (o meu risotto de cogumelos é lendário no meu grupo de corrida), gosto de comparar a revolução do PEBA (ZoomX) a cozinhar a massa al dente. O PEBA tem estrutura. Tem resistência. Quando o pisas, ele não se limita a afundar; ele luta contra o teu pé, empurrando-te de volta. Foi isso que mudou o jogo. Não foi a placa de carbono sozinha; foi a espuma que permitiu poupar as pernas. O EVA não morreu totalmente — ainda é útil para estabilidade e baixo custo — mas para performance de elite? É peça de museu. RunRepeat Lab Data: Running Shoe Foams mostra claramente esta transição tecnológica.Análise Laboratorial: Air Zoom vs. ZoomX em Números
Vamos deixar a nostalgia e olhar para os dados frios. Como analista, é aqui que me sinto em casa. O que dizem os testes de laboratório sobre estas duas tecnologias?Mecânica dos Fluidos: Como funciona o Air Zoom
O Nike Air não é apenas ar; é nitrogénio pressurizado dentro de uma bolsa de uretano resistente. Mas o segredo são as fibras tensoras (tensile fibers). Dentro da bolsa, milhares de fios ligam a parte de cima à de baixo. Quando o ar é comprimido, essas fibras tensionam-se e "disparam" o pé de volta para cima instantaneamente. Retorno de energia: Puramente mecânico e imediato. Peso: Relativamente pesado comparado com espumas modernas. Durabilidade: Excelente.Química de Polímeros: O segredo do PEBA
O ZoomX é derivado de um material chamado PEBAX (Polyether Block Amide). É expandido em beads ou injetado, criando uma espuma incrivelmente leve (cerca de 1/3 do peso do Cushlon/EVA). Retorno de energia: Químico, atingindo valores superiores a 85% segundo dados do RunRepeat Lab Data: Nike ZoomX. Para comparação, o EVA clássico raramente passava dos 65%. Peso: Pluma. Durabilidade: Baixa (rasga-se facilmente e abate com o tempo).| Característica | Air Zoom | ZoomX (PEBA) |
|---|---|---|
| Tipo de Retorno | Mecânico (rápido/seco) | Elástico (suave/bouncy) |
| Peso | Médio/Alto | Muito Baixo |
| Durabilidade | > 800 km | ~ 400-600 km (pico de performance) |
| Sensação | Firme e reativo | Macio e instável |
O Veredito Prático: O que comprar e quando usar
Aqui vai a minha recomendação direta, sem rodeios, baseada no que prescrevo aos meus atletas: 1. Ritmos acima de 5:00/km ou Treinos Diários: Prioriza o Air Zoom (ou misturas como o ReactX). Precisas de estabilidade e durabilidade. O Pegasus ou o Structure são ideais. Não precisas de gastar 250€ num Alphafly para correr a 6:00/km; na verdade, a instabilidade da espuma ZoomX pode até causar lesões nesses ritmos mais lentos devido ao maior tempo de contacto com o solo. 2. Treinos de Séries, Tempo Run e Provas: Se vais atacar um recorde pessoal (PB) e o orçamento permite, ZoomX é obrigatório. O Vaporfly ou o Alphafly (híbrido) vão poupar as tuas pernas. A diferença muscular no dia seguinte a uma prova de 42km com e sem ZoomX é brutal. DO: Usar sapatilhas de ZoomX apenas nos dias chave (o "longão" com ritmo de prova e o dia da prova). DON'T: Usar sapatilhas de ZoomX para caminhar, ir ao ginásio ou trotes de recuperação. A espuma é demasiado instável lateralmente.O que dizem os pelotões nacionais
Não sou só eu a falar. Se frequentam os fóruns de corrida portugueses ou os grupos de Strava da zona norte, já notaram um padrão nas queixas. Tenho lido muitos relatos de corredores amadores que compraram o topo de gama da Nike e começaram a sentir dores misteriosas nos gémeos e no tendão de Aquiles. A culpa muitas vezes é atribuída à "moleza" excessiva do ZoomX. Sem uma musculatura estabilizadora forte no tornozelo, o pé "dança" demasiado em cima daquela espuma macia, sobrecarregando os tendões. Outro ponto frequente de discussão é o calvário da calçada portuguesa. Há relatos, que considero fidedignos, de solas de Alphafly a descolarem ou a espuma a ser "comida" precocemente pelo nosso paralelo irregular. O piso português não perdoa materiais delicados. Sapatilhas desenhadas para o asfalto perfeito de Berlim sofrem muito na marginal de Gaia.Mito vs. Realidade: "O Air Zoom é tecnologia ultrapassada"
Há quem diga que o Air Zoom é tecnologia dos anos 90 e que a Nike só o mantém porque é barato de produzir. Mito. A realidade é que o Air Zoom oferece algo que a espuma sozinha ainda tem dificuldade em replicar: reatividade localizada e estabilidade sob carga máxima. É por isso que o Nike Alphafly Next% 3 usa duas cápsulas de Air Zoom no antepé. A espuma ZoomX é ótima, mas quando comprimida totalmente (no momento de impulsão máxima de um atleta de elite), ela pode "bater no fundo". O ar pressurizado não. Ele oferece uma plataforma final de impulso que é mais rígida e responsiva do que qualquer espuma. O Air Zoom ali funciona como um pistão. Portanto, não é tecnologia velha; é engenharia aplicada onde a espuma falha.
Evolução do meu 'Quiver': 2016 vs. 2026
Se abrissem o meu armário em 2016, encontrariam três pares de Pegasus 33 e talvez um par de flats de competição duros como pedra. Era tudo EVA e pequenas unidades de Air Zoom no calcanhar. Em 2018, comprei o meu primeiro Zoom Fly. Foi uma revolução, mas era duro e a placa de carbono parecia agressiva demais para o meu nível na altura. Em 2020, o ZoomX democratizou-se. De repente, tínhamos acesso a esta espuma "mágica". Cometi o erro de comprar o Invincible Run (100% ZoomX sem placa) e usá-lo para tudo. Resultado? Uma instabilidade que me custou duas semanas de paragem com dores no tornozelo. Hoje, em 2026, com 10 anos disto nas pernas, o equilíbrio voltou. O meu quiver (rotação) atual reflete a maturidade: Air Zoom (Pegasus) para 80% dos treinos. Fiável, estável. ZoomX Puro (Vaporfly) apenas para dias de prova e testes de ritmo. Segundo as estatísticas da DUV Ultra Marathon Statistics e outras bases de dados, a evolução dos tempos médios em maratona correlaciona-se diretamente com a massificação destas tecnologias, mas a sabedoria está em saber quando não as usar.Teste de Fogo: Da Foz ao Freixo
Para quem é do Porto, o teste definitivo de qualquer sapatilha é o percurso ribeirinho: da Foz até à Ponte do Freixo. É o meu laboratório pessoal. Este trajeto de cerca de 12km (ida e volta dá um belo longo) tem de tudo. Começamos no cimento liso da Foz, passamos por zonas de paralelo antigo na Ribeira e acabamos em asfalto na zona oriental. O que noto invariavelmente: Na calçada molhada perto do rio: O Air Zoom transmite segurança. Sinto o chão, a sapatilha não oscila quando piso uma pedra torta. Nas retas de asfalto da marginal: O ZoomX brilha. Ali, onde o piso é previsível, posso deixar a espuma trabalhar e sinto aquela propulsão extra. Mas assim que entro nas zonas de paralelo irregular perto da Alfândega, o ZoomX torna-se um pesadelo de instabilidade. Parece que vou torcer um pé a cada passada. É o exemplo perfeito de como o terreno dita a tecnologia, algo que o Strava Global Heatmap confirma implicitamente ao mostrar onde os corredores rápidos (provavelmente com super shoes) preferem correr: nas estradas mais lisas e retas possíveis.Aquele treino em que tudo clicou
Lembro-me de um treino específico antes da Maratona de Sevilha, há uns meses. Era um longo de 32km com os últimos 10km em ritmo de maratona. Estava a usar um modelo híbrido (ZoomX + Air Zoom). Aos 28km, quando normalmente o "homem da marreta" começa a espreitar e as pernas pesam, senti algo diferente. O cansaço estava lá, claro, mas a mecânica da passada continuava fluida. O Air Zoom no antepé dava-me aquele "pop" extra quando a minha técnica começava a falhar por fadiga, e o ZoomX amortecia o impacto brutal do asfalto. Foi um momento de clareza. A tecnologia não corre por nós — eu ainda tinha de fazer força, suar e gerir a mente. Mas a combinação certa de física e química permitiu-me expressar o treino que tinha nas pernas sem ser limitado pelo material. Entender a "sopa de letras" da Nike não é sobre ser um geek de equipamento. É sobre respeitar o esforço que colocamos no treino. Escolham a ferramenta certa para o trabalho certo, e vemo-nos na estrada.
Dica do Treinador: Se tens dúvidas entre comprar um modelo com ZoomX ou Air Zoom, analisa o teu histórico de lesões. Se tendes a ter fascite plantar ou problemas no tendão de Aquiles, o Air Zoom (mais firme) costuma ser mais seguro que a instabilidade do ZoomX puro.
Para mais detalhes sobre como escolher o modelo certo, espreitem o meu guia sobre Nike ZoomX: Guia de compra para escolher o modelo ideal. E se estás a começar agora e tudo isto parece confuso, talvez o meu artigo sobre Do zero à maratona seja um melhor ponto de partida.
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